Férias sem stress
Rosângela Vale
Todo fim de ano traz um dilema para os pais. Antes ou depois da viagem em família, os pimpolhos vão ter que ficar em casa sozinhos, com toda aquela energia em ebulição. Televisão e Internet são suficientes? Para a arte-educadora Giselle Cristiane Soares Dellatorre, que escreveu o livro Hora de Brincar, a resposta é um sonoro não. De acordo com ela, a presença dos pais nas brincadeiras dos filhos é imprescindível e perfeitamente conciliável com o trabalho.
Em 92 páginas, a autora reúne dicas simples, porém, preciosas, e dá receitas de brinquedos feitos com material alternativo, como caixas de ovos, garrafas de água e bolas de isopor, que estimulam a criatividade. Algumas brincadeiras exploram bastante o contato físico entre pais e filhos, como o Desenhando na Mamãe ou o Pintando o Papai. Trata-se de um resgate da afetividade tão pouco manifestada nesses tempos modernos e que, segundo Giselle, é uma das causas de tanta violência praticada hoje por adolescentes. Os pais costumam suprir as necessidades de afeto dos filhos com consumo, sem pensar nas consequências que isso trará mais tarde, adverte.
Criatividade Contra a falta de tempo generalizada, o antídoto é a imaginação. Giselle ensina algumas brincadeiras que podem ser programadas pelos pais à noite, uma forma de se fazer presente no dia seguinte, mesmo na hora do expediente. A presença, na maioria das vezes, não se dá quando estamos fisicamente com as crianças, e elas bem sabem disso. Nós, adultos, também conhecemos muito bem essa situação. Quantas vezes o marido ou a esposa estão em casa mas parecem não estar? Fazer-nos presente é fazer com que a outra pessoa saiba que estamos com ela, mesmo estando distante de nós, escreve, sugerindo atividades como Caça ao Tesouro, em que os pais espalham bilhetes com pistas pela casa toda. Cabe à criança desvendar o mistério.
Segundo Giselle, mesmo quando há tempo as opções de lazer escolhidas não são as mais sensatas. Tem coisa mais entediante do que levar a criança no shopping e vê-la ficar rodando para lá e para cá, depois chegar em casa e colocá-la para dormir?, indaga ela, que sempre teve um contato muito próximo com as filhas Gabriela e Carolina, apesar da doença que por alguns anos impediu seus movimentos. Aos 23 anos, Giselle teve artrite reumatóide, que afeta as articulações. Foi como se me roubassem o privilégio de ser mãe, lembra.
Mas ela foi se adaptando às limitações. Na época em que só podia movimentar os braços, inventou brinquedos que deram origem a seu primeiro livro O Mundo do Papelão, hoje adotado por escolas, comunidades religiosas e projetos sociais em vários estados brasileiros.
Quando a doença a imobilizou quase que totalmente, a criatividade substituiu os movimentos. Foi quando inventou o Fantoches nos Pés (a única parte do corpo que conseguia mexer). Com etiquetas adesivas, canetinhas coloridas, roupinhas de boneca e tesoura sem ponta fez sua pequena mágica: os pés, então, começaram a conversar. Podemos utilizar esse momento para sabermos de algumas coisas que aconteceram durante o dia ou até mesmo para ouvirmos opiniões sobre determinados assuntos, ensina Giselle.
Limites Hoje curada, ela dá palestras e oficinas em escolas para pais, alunos e professores, além de ter estreado um quadro no programa Mafalda Mulher, onde ensina a fazer brinquedos. Tanta ênfase em um assunto aparentemente banal como brincar tem causas nobres. Como explica a psicóloga Rosangela de Moraes na apresentação do livro, brincar possibilita introjeções de regras, nomeações de afetos, reconhecimento de situações e paixões humanas e intercâmbio de inúmeras possibilidades de se fazer relações e se tornar humano. Através de brincadeiras, a criança pode ainda começar a ter noções básicas de limites, um dos assuntos atualmente mais discutidos entre educadores.
Para Giselle, a forma mais simples de passar esse conceito é limitar os espaços para as brincadeiras dentro de casa. Assim, os pais conscientizam a criança de que ela faz parte desse mundo, mas que deve respeitar os limites de seu espaço e, consequentente, o espaço do outro, observa. A dica é comprar um plástico grosso, mais ou menos 1 x 1, e forrá-lo num lugar reservado da casa onde a criança não incomode nem seja incomodada. É ali que ela vai brincar. Talvez você tenha que remanejar um cantinho para ela, isso fará com que se sinta importante, explica.
Outra sugestão da autora para as férias é a recreação no condomínio. A idéia é reunir a criançada em um lugar seguro, sob a supervisão de um profissional de educação física especialmente contratado, para conduzir as atividades na área comum do prédio. Algumas opções: alugar cama elástica, pula-pula e piscina de bolinhas. Os custos seriam rateados entre os pais.
E que tal colocar a garotada para trabalhar? Giselle cita algumas atividades remuneradas, com preços combinados de antemão, que podem ser feitas em casa, como limpar CDs, arrumar gavetas e engraxar sapatos. O estímulo é a compra daquele brinquedo tão desejado. Dessa forma, ela vai ter noções de valor das coisas e também do trabalho, observa. Com várias ilustrações e leitura rápida, Hora de Brincar é uma exemplo de respeito à infância e também um guia de sobrevivência dos pais durante a temporada de ócio infantil.
Serviço: Hora de Brincar, Editora Pé Vermelho, R$ 15,00.Bem ilustrado e de leitura rápida, Hora de Brincar é um guia de sobrevivência dos pais durante a temporada de ócio infantil
Fotos: reproduçãoA arte-educadora Giselle Dellatorre entre as filhas Gabriela e Carolina: resgate da afetividadePorquinho feito com garrafão de água e potinhos de YakultFlyk, a formiguinha de Vida de Inseto: bolas de isopor e arame





