Feminismo revisto
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quinta-feira, 14 de julho de 2005
Agência Estado 
A psicóloga Vilma Marchitiello questiona os reais benefícios alcançados pelas mulheres após queimarem seus sutiãs em praça pública, em 1969. Mais: acha que a revolução não só fracassou, como passou por cima da feminilidade. Durante dois anos, Vilma fez reuniões semanais com cerca de 80 mulheres, de idades entre 20 e 50 anos. Dos depoimentos, surgiu o livro ''Voltar a Ser Mulher'' (Editora MGP), uma reflexão sobre o universo feminino. Mas a obra é apenas o começo de sua batalha.
Ela sonha em convocá-las a repensar o modelo atual feminino, fazendo uma nova revolução. ''Lógico que não tenho todas as respostas, mas sim muitas perguntas para a gente debater. Quero criar um movimento de reforma no mundo feminino, por meio de fóruns, seminários'', avisa essa paulistana, viúva, mãe de três filhos jovens de dois casamentos. Ela procura um patrocinador para colocar em prática esse objetivo.
Segundo ela, nas reuniões a maioria das mulheres se queixava da frustração e da culpa de não poder acompanhar o crescimento dos filhos. ''E reclamavam do ritual doméstico que enfrentam antes de sair para trabalhar e, depois, quando voltam para casa, enquanto os maridos descansam. Falaram ainda que eles estão prontos para o sexo na noite, mas elas, acabadas. Ressentem-se também de não se encaixarem no atual padrão de beleza, por isso, ficam com baixa auto-estima''.
A psicóloga alega que a revolução feminista foi um fracasso porque se propôs a mudar a vida da mulher, mas só a inseriu no mercado de trabalho. ''Mercado este que apenas satisfaz as solteiras ou sem filhos. Só que a maioria das mulheres casa-se e tem filhos. As moças de 20 a 30 anos não concordam com o que digo. Mas elas só têm a teoria da revolução feminista e a porta aberta para o mercado de trabalho. Para mulheres com filhos pequenos e adolescentes, trabalhar fora é um péssimo negócio, por causa da dupla jornada de trabalho''.
A revolução feminista também mudou a vida do homem. Vilma observa que homem convivia com dois estresses e uma alegria. Tinha a preocupação de sustentar a família, de ser o progenitor, e era proibido de chorar. Por outro lado, tinha o prazer da fantasia, de imaginar como seria abordar uma mulher e o prazer da conquista. ''A psicologia se encarregou de tirar o fardo social que o proibia de chorar. Mas a revolução feminista minou o restante: hoje, a mulher também se sente na obrigação de trabalhar fora e sustentar a casa e, liberada, ela se exibe de uma maneira vulgar. O corpo tornou-se uma mercadoria fácil de se adquirir, ao contrário de outros tempos, quando se destacava a sensualidade da mulher e os homens lutavam para conquistá-las.''
A psicóloga observa que com a revolução femininista, parte das mulheres deixou de ser escrava do tanque, do fogão, para se tornar escrava da academia, do manequim 38, do padrão de beleza atual. ''Hoje, tem que ser atraente sexualmente, não sensualmente. A mulher virou um objeto de prazer explícito. Portanto, não mudou nada. Ela continua submissa, embora tenha mudado o foco da submissão.
Para mudar tudo isso, Vilma aconselha as mulheres a brigar pelo direito de trabalhar meio período, por horários mais flexíveis, para poderem cuidar dos filhos, da casa, do marido, sem ficarem sobrecarregadas. ''Entre a mulher oprimida de antes e a mulher liberada de hoje, algumas coisas importantes se perderam. Precisamos resgatar o que temos de melhor, a nossa feminilidade. Não a estereotipada, que a mídia apresenta no mundo de hoje. Mas trazer de volta a mulher sensível, forte, amiga, companheira, sábia e cúmplice''.
Ele reconhece, no entanto, que hoje o casal vive nesse estresse de trabalhar feito doido para pagar as contas. O filho, por sua vez, vive sem atenção e essa carência vai sendo preenchida com presentes. Por isso que hoje é importante rever os gastos, o nível de consumo. ''Compramos muitas coisas das quais não precisamos. Por que trocar o carro todo ano? Por que colocar a criança em tantas atividades? Dá para viver bem sem tantos luxos. E se a mulher decide dedicar-se apenas à família, ela vai precisar reavaliar tudo isso.''
Ela lembra que não queimou sutiã naquela época. Estava recém-casada, mas logo entrou para o mercado de trabalho, como fizeram todas as mulheres que se achavam na obrigação de sair de casa e trabalhar fora. Mas passou por um momento difícil e sentiu na pele tudo o que vem dizendo. ''Quando meu filho mais velho era criança, a professora pediu que o levasse a um psicólogo. Esse profissional disse que ele estava sentindo muito a minha ausência. Naquela época, trabalhava como secretária executiva, tinha um bom salário e bom status na empresa. Mesmo assim, pedi a conta para dar mais atenção ao meu filho. Foi difícil, porque, para mim, o importante era trabalhar fora, ser produtiva e não ficar emburrecendo em casa. Tinha medo de me tornar ''Amélia''. Comecei a me dedicar a outras coisas, ia para aula de pintura, comecei a estudar. Só voltei a trabalhar quando ele já estava bem crescido''.


