Feliz coincidência
Depois de 15 anos de casamento, a educadora Regina (*) e o comerciante Pedro decidiram ter um filho. Como o projeto não se realizava naturalmente, os dois procuraram um médico e descobriram que a única opção seria uma inseminação artificial. Foi quando achamos mais fácil adotar. Pela inseminação, a criança também não seria nosso filho biológico. Mas levamos mais de um ano para decidir o que fazer, conta ela.
Definida a idéia de adotar um filho, eles dizem que como a maioria dos casais tinham algumas exigências. Nós queríamos que fosse um bebê branco, mas não fazíamos questão do sexo da criança. Então fomos até a Vara da Infância e Juventude para dar entrada no processo de adoção, mas as pessoas diziam que era muito demorado, lembra ela.
Foi quando os dois resolveram apelar para a ajuda dos amigos. Foi quando um amigo nos telefonou falando de uma criança em Tomazina que seria doada pela mãe, afirma Pedro. Mas quando chegaram no local para conhecer a criança, a primeira decepção aconteceu. Nós olhamos para o bebê e ele era perfeito, mas não sentimos nada por ele. Foi uma situação muito estranha porque não entendíamos o motivo de não querer a criança. Voltamos para casa sozinhos, diz Regina.
A explicação para a rejeição viria oito meses depois, exatamente no dia do aniversário dela. O telefone tocou e uma amiga me disse que havia uma mulher grávida que queria doar o filho. No mesmo momento mem senti ligada à criança, tocada por um sentimento diferente. Para mim foi um sinal divino e resolvemos tentar outra vez, lembra.
Dois meses depois nascia Felipe, que foi direto para os braços de Regina. A mãe biológica preferiu não ter contato algum com a criança para não se afeiçoar. Eu estava no hospital esperando e tremia de nervoso. Estava muito emocionada, afirma. É uma situação ímpar. Não conseguiria descrever em palavras a emoção de receber o Felipe da enfermeira, completa Pedro.
O menino então foi levado para a casa do casal e paparicado por toda a família. Eu tinha medo de os familiares não receberem ele como um membro da família, mas todo mundo o adora e não existe diferença de tratamento, garante ela.
O casal afirma que a chegada de Felipe mudou radicalmente a estrutura da casa. Ele é arteiro, carinhoso, está sempre por perto. Costumo dizer que antes dele nossa vida era em preto e branco. Ele veio para colorir tudo, comenta Regina. Se não tivéssemos ele, seríamos só nós dois aqui nessa casa. Acho que seria tudo mais triste, completa o pai.
Embora o assunto nunca tenha sido abordado seriamente, o menino, hoje com nove anos de idade, sabe que é adotado. Falamos que ele não nasceu da minha barriga, que foi uma outra mulher que deu ele para nós porque não podia cuidar dele direito. Achamos que seria um erro esconder a verdade. Dessa forma, Felipe encara tudo de forma tranqüila, diz.
Para os pais, o assunto é algo que não atrapalha em nada a relação com o filho. Eu nem lembro que ele é adotado. Para mim, ele é meu filho e até se parece com o meu marido, no físico e no jeito de ser, observa Regina. Existem as dificuldades de qualquer filho, mas elas fazem parte. As coisas boas que ele nos dá compensam qualquer problema, diz Pedro.
Depois de dois anos de um processo de tutela, o menino foi registrado em nome do casal, seguindo as regras da lei. A diferença no nosso caso é que apareceu essa mãe que queria dar o filho para adoção e nos escolheu como pais. Por isso, nosso processo foi mais rápido. Mas mesmo que demore, aconselho os casais a adotarem uma criança. Ninguém sabe o que é vida de verdade antes de ser pai, completa Pedro. (H.F.)
(*) Os nomes foram todos trocados para garantir a privacidade dos entrevistados





