Angela Raizer Barbosa
Na década de 80, a obesidade infantil representava 3% em crianças até 10 anos. Hoje, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, esse percentual chega a 15%, 5% a menos do índice encontrado nas crianças norte-americanas. Enfim, estamos chegamos ao Primeiro Mundo graças a mesa farta de maus hábitos alimentares. Frituras, doces e refrigerantes são hoje os grandes vilões do cardápio infantil, que apresenta mais uma consequência perversa à saúde dos baixinhos: um índice altíssimo de anemia. Não aquela velha e conhecida anemia das regiões mais pobres do Brasil, mas, sim, a anemia do excesso de comida inadequada encontrado no cardápio das classes mais abastadas. Culpa de quem? Em primeiro lugar, dos pais, é claro, que aderiram às facilidades dos alimentos industrializados e da comida semipronta, sem contar os salgadinhos e hambúrgueres que abastecem lanchonetes e cantinas.
Os especialistas garantem que a criança aprende a comer bem até os 5 anos, quando os pais têm um controle maior sobre o cardápio do filho. A partir dessa idade, os pais precisam contar com a colaboração das escolas. O que não vem acontecendo na grande maioria delas, de acordo com uma pesquisa realizada pelo curso de Nutrição da Universidade Noroeste do Paraná em 47 escolas particulares de Londrina, publicada recentemente na revista Crescer, da Editora Globo. O levantamento revela que 93% das cantinas vendem frituras e chips, 10% oferecem refrigerantes, chocolates e balas, 80% comercializam refrescos artificiais e 84% vendem chocolates. Apenas 11% das cantinas têm no cardápio sucos naturais e 5% oferecem frutas. Números que podem ser facilmente constatados pelos pais – basta dar uma passadinha na escola em que seus filhos estudam na hora do recreio para sentir o cheiro característico de frituras.
Pastéis e cia. ‘‘O problema é que as crianças já saem de casa mal- alimentadas, sem um café da manhã completo, não querem levar lanche e acabam se rendendo às coxinhas, quibes, pastéis e refrigerantes oferecidos pelas cantinas’’, observa a nutricionista Ilídia Martelli Takahashi. Segundo ela, esses alimentos são muito gordurosos e têm maior poder de saciedade. ‘‘Quando a criança chega para almoçar, não tem fome suficiente para fazer uma refeição completa. No lanche da tarde se empanturra de bolachas e outros produtos com baixo poder nutritivo, mas altamente calóricos. Daí a incidência cada vez maior de crianças obesas ou anêmicas’’.
A nutricionista diz que se a criança se alimentar bem antes de sair de casa, pode dispensar o lanche da escola na hora recreio, substituindo-o por uma fruta, um suco natural ou um lanche leve trazido de casa. Segundo ela, o café da manhã deve ter, no mínimo, pão, requeijão ou queijo branco, uma fruta e leite. Os cereais matinais menos adocicados podem substituir o pão. ‘‘A tarefa de educar as crianças para que tenham uma rotina alimentar adequada não é tão simples assim, o que faz com que os pais prefiram dar dinheiro, criando o hábito de lanchar na cantina da escola’’, afirma Ilídia Takahashi. Há crianças que não conseguem tomar café da manh㠖 levantam em cima da hora e saem correndo para a escola. ‘‘Neste caso deveriam levar o lanche de casa. Nada de biscoitinhos, chocolates ou sucos artificiais e, sim, sanduíches com pão, frios, sucos naturais e barras de cereais. Há, inclusive, empresas especializadas que fazem e entregam esse tipo de lanche nas escolas’’, lembra Ilídia.
Os pais têm essa opção, no entanto é quase impossível impor uma disciplina, concorrendo com as frituras feitas na hora e as guloseimas oferecidas pelas cantinas. ‘‘Cabe às escolas dar sua contribuição, evitando que os donos de cantinas forneçam esse tipo de lanche e elaborando um cardápio mais nutritivo e saudável. E até mesmo os professores poderiam abordar em sala de aula os aspectos negativos de um lanche à base de salgadinhos e doces’’, afirma Ilídia Takahashi, que se diz preocupada com o grande percentual de crianças e adolescentes obesos em Londrina. ‘‘Já é um problema de saúde – as gorduras vão se acumulando, atrapalham o crescimento, com consequências graves na vida adulta’’. Tem mais: estimativas médicas mostram que oito em cada dez crianças obesas se tornam adultos gordos.Os maus hábitos alimentares em casa e na escola estão criando dois extremos: obesidade e anemia em crianças de classes mais abastadas
Paulo Wolfgang; modelo: Bruno W. Seehagen; produção: Celso Mattos; cabelo: Dorilde/Maristela e Moçambique CabeleireirosAs crianças saem de casa sem um café da manhã adequado, não querem levar lanche e acabam se rendendo aos hambúgueres, pastéis e refrigerantes oferecidos pelas cantinasDaniel Martinon‘‘Cabe às escolas dar sua contribuição, evitando que os donos de cantinas forneçam frituras e elaborando um cardápio mais nutritivo e saudável’’, afirma a nutricionista Ilídia Martelli TakahashiArquivo FolhaAlém de altamente calóricas, as frituras têm maior poder de saciedade

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