No mundo das crianças, onde tudo é muito simples - e, ao mesmo tempo, muito sofisticado - quando o amigo falta, é só inventar outro. Para os pais, a criatividade dos filhos, às vezes, é encarada como loucura: de uma hora para outra, o filho começa a falar sozinho e a dar papinhas de vento para o ursinho de pelúcia. Mas, até certo ponto, os amigos imaginários são companhias saudáveis.
''É esperado que a criança tenha uma amizade fantasiosa até os seis anos de idade'', diz a psicopedagoga especialista em distúrbios de aprendizagem Karen Kaufmann Sacchetto, diretora da Escola São Gabriel, na capital paulista. Segundo Karen, a criação de uma figura mostra que o pequeno tem vivacidade mental. ''Se a criança não fantasia nem um pouco, pode amadurecer muito rápido, o que não é bom'', diz a psicopedagoga.
A criança pode inventar esse amigo por diversas razões. Filhos únicos, que se sentem muito solitários, costumam receber a visita de um companheiro fictício. Perdas (de um ente querido ou de um bichinho de estimação), problemas e doenças na família também costumam levar ao nascimento dos amigos imaginários. ''Nessas situações, quando a atenção dos pais está longe dos filhos, as crianças tentam achar uma válvula de escape para trabalhar os conflitos ou, simplesmente, para chamar a atenção e se sentirem queridas'', diz Karen.
Construído da maneira que a criança desejou, o companheiro fictício é perfeito. Ou, pelo menos, está sempre disponível para ela. Brinca a qualquer hora, leva bronca, conversa de madrugada, ouve reclamações. Ana Carolina Bullentini, de sete anos, só fala sobre seus desentendimentos com colegas da escola com sua amiga imaginária, que não tem nome. Segundo a mãe da garota, Rita de Cássia Bullentini, de 38 anos, a fantasminha camarada já existe há uns quatro anos e Ana Carolina, que é filha única, não gosta de dividi-la com outras pessoas. ''Ela se sente invadida'', diz Rita.
Se, por outro lado, o filho insistir para os pais entrarem na brincadeira, não há problema algum em interagir com o amigo imaginário. Segundo Karen, a criança sabe que ele não existe. É como se fosse um conto de fadas, uma outra brincadeira de faz de conta. E, a partir dos sete anos de idade, a confusão entre fantasia e realidade começa a ser solucionada. O amigo imaginário vai embora numa boa. Ou, como os personagens do desenho animado ''A Mansão Foster Para Amigos Imaginários'' (do canal a cabo Cartoon Network), ficam guardados em um lugar especial.
Em alguns casos, a criança pode começar a viver a fantasia de forma exacerbada, realizando ações perigosas, mentindo aos pais e evitando a companhia dos amiguinhos de carne e osso. Rita, que também tinha amigas ilusórias na infância, nunca se importou com a comadre imaginária de Ana Carolina. ''Ela nunca deixou de brincar com as coleguinhas de verdade por causa dela'', diz a mãe.
Também é importante que os pais estejam alerta para as mensagens que os filhos passam para os amigos imaginários. Elas podem indicar pedidos de ajuda, anseios e inseguranças da criança.

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