Fale na medida certa
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 24 de maio de 2001
Vivian Ávila Pavan Especial para Folha da Sexta 
Fala muito, fala pouco, fala na medida. No dia-a-dia nos deparamos com pessoas com essas características. Certamente nos encaixamos em uma delas. A primeira, como se diz, fala pelos cotovelos! Da segunda, que não é muda nem nada, é difícil tirar alguma opinião, uma manifestação. A última é a idealizada, aquela que fala o que deve, no momento oportuno.
A vida pessoal e o mercado profissional solicitam comportamentos que, muitas vezes, não condizem com a personalidade das pessoas. A timidez de um adolescente torna-se um complicador na hora de pedir a garota em namoro. O adulto tímido, passivo, perde oportunidades de crescer no emprego. A agressividade no trato com os funcionários, definitivamente, não integra os requisitos de um chefe, o líder da equipe.
Ansiedade Para a psicóloga clínica Maria Zilah Brandão, diante de cada comportamento cabe uma análise. Uma pessoa pode falar muito para se ver livre de uma ansiedade ou por ter um posicionamento agressivo. Muitas vezes, a ansiedade leva o indivíduo a entrar numa discussão que não diz respeito a você, mas você antecipa posicionamentos, dá opinião para quem não pediu, fala mais do que deve, destaca.
O tipo agressivo, ressalta Maria Zilah, é aquele que não respeita ninguém, ou seja, a opinião dele é boa, a dos outros não serve. Funcionalmente, o tipo agressivo sempre acha que a opinião dele é melhor, tem mais valor, menosprezando o outro, frisa a psicóloga. O comportamento passivo considera a opinião alheia mais importante e, geralmente, a pessoa fala pouco ou nada porque valoriza mais o outro, complementa.
Identificamos também, cita a psicóloga, o tipo passivo-agressivo, aquele indivíduo muito quieto e que, como se diz, quando o copo está enchendo, estoura, vira a mesa. Essa situação pode ser agravada porque quando a pessoa fica agressiva fala mais do que deve, estoura na hora errada e com a pessoa errada. O importante é falar sempre o que se pensa para o copo não transbordar, enfatiza.
Sentimentos válidos O comportamento intermediário, idealizado, é o assertivo. Conforme Maria Zilah, os assertivos falam bem, na hora certa, de forma bem posicionada, não são agressivos e conseguem falar sem passar por toda aquela angústia.
Diferente dos outros tipos citados, o assertivo considera seus pensamentos e sentimentos válidos e sabe que pode dividi-los com outras pessoas. Conviver com pessoas assertivas é estimulante, pois o segredo de um desenvolvimento emocional sadio é a sinceridade, o afeto, o respeito por si mesmo e pelo outro, assegura.
A psicóloga comenta que homens e mulheres, indiferentemente, apresentam essas características, mas é mais comum o sexo feminino procurar ajuda. Adolescentes também buscam auxílio, sobretudo quando iniciam seus relacionamentos amorosos. Maria Zilah lembra que é comum a pessoa passar por sofrimento até procurar um profissional. Existe um consenso popular de que esses comportamentos constituem o gênio da pessoa, integram a sua genética e são imutáveis.
Timidez excessiva Tremedeira, pernas moles, sensação de branco. Quem já não sentiu pelo menos um desses sintomas diante de uma situação nova, a apresentação de um trabalho, por exemplo. Para muitos, ler trechos bíblicos na missa de domingo é um grande desafio. O texto, curto, parece interminável. Maria Zilah diz que as pessoas consideradas tímidas normais tendem a melhorar se, com as experiências de vida, forem enfrentando gradualmente as situações em que sentem muito medo. Ao contrário, se acontece uma fuga persistente desses momentos que consideram difíceis, podem tornar-se fóbicos sociais.
Fobia social é o medo intenso de ser criticado, desaprovado, de se expor ao ridículo, define Maria Zilah. O fóbico social desenvolve fantasias e pensamentos catastróficos sobre o que sentiria se tivesse que se expor às situações que teme.
Ela exemplifica: a pessoa tem medo de fazer palestras e o medo se torna maior porque imagina que todos vão perceber as suas mãos tremendo. Ela só visualiza catástrofe, o que faz com que vá evitando esse tipo de situação e gerando, em consequência, uma ansiedade ainda maior.
Segundo a psicóloga, hoje as terapias mais efetivas para vencer a timidez, as fobias são as que envolvem técnicas de exposição e enfrentamento. Maria Zilah destaca que a exposição deve acontecer gradualmente. Aproveitando o exemplo citado: aquela pessoa que teme fazer palestras, deve começar enfrentando um número reduzido de pessoas; depois, ampliar a platéia, até permanecer diante de uma multidão.
Maria Zilah Brandão
Av. Higienópolis, 32. Salas 902/904
Fone 324-4740
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