Você já parou para pensar quantas vezes por dia você usa sua voz? Com certeza são muitas horas falando com amigos, trabalhando ou em atividades rotineiras como atender o telefone e pedir informações. Mas poucas pessoas se preocupam com o tratamento e cuidado com algo tão necessário para o nosso dia-a-dia. Principalmente os profissionais que necessitam da voz para trabalhar, como professores, vendedores e jornalistas, as precauções devem ser dobradas.
De acordo com a fonoaudióloga Jaqueline Santos, o problema mais comum decorrente do uso da voz são os nódulos vocais, mais conhecidos por calos vocais. ''Cerca de 60% dos professores sofrem com nódulos vocais. Falamos nessa profissão porque é a que mais usa e mais força a voz durante o trabalho, mas outros profissionais também têm problemas'', diz. Os calos são deformidades nas cordas vocais que impedem que as mesmas se fechem corretamente e, se não forem tratados, podem se transformar em câncer de laringe e deixar a pessoa sem voz.
Eles aparecem, segundo Jaqueline, pelo uso errado da voz. Tentar falar em tons altos, gritar e falar em socos são os principais responsáveis pelo surgimento do problema. ''Esses hábitos associados com o uso frequente da voz e a falta de hidratação das cordas vocais acabam causando os nódulos. Quem nunca ouviu um professor reclamar que está com a voz rouca, com a garganta doendo ou a voz falhada? Isso pode ser um sinal de que existe um problema. Mas poucas pessoas se preocupam e procuram um médico. A maioria acredita ser uma simples irritação ou inflamação'', lembra.
Como o brasileiro tem o hábito de se automedicar, acaba tomando alguns antiinflamatórios. O incômodo desaparece, mas o problema continua e tende a voltar. ''Geralmente o que some é a dor, mas a rouquidão continua. Se ela persistir por mais de 15 dias, é sinal de calo vocal'', garante a especialista. Outras atitudes que ajudam a agravar os nódulos são o cigarro, o consumo de bebidas geladas, a má alimentação, com alimentos muito temperados, chocolate e cafeína em excesso, falta de sono, gripes, resfriados e renites que não são tratadas corretamente e o ar-condicionado.
''Cada um desses fatores age de uma forma, mas basicamente todos afetam a laringe e comprometem as cordas vocais. O cigarro pelas substâncias químicas, as bebidas geladas, o ar-condicionado pela mudança brusca de temperatura e as gripes e renites pela irritação que elas provocam na garganta'', explica Jaqueline.
O problema de nódulos, segundo ela, é mais frequente em mulheres e tende a piorar com a idade, devido aos hormônios. Para garantir que eles não apareçam, além de evitar todos os fatores de risco citados, é importante tomar cuidados simples. ''Hidratar a voz é fundamental. Quem trabalha com a voz deve beber muita água, em temperatura ambiente, durante todo o dia. Comer uma maçã por dia também ajuda a limpar as cordas vocais e evitar irritações'', ensina.
Outra boa idéia é aquecer a voz antes de trabalhar e relaxá-la depois do uso. A fonoaudióloga garante que os exercícios são simples de fazer. ''Basta fazer por um minuto cada exercício. Antes de começar a falar, é só tremer a língua e os lábios em tom ascendente e relaxar o pescoço. Quando terminar, é só fazer o mesmo mas em tom descendente'', diz. Aprender a usar a voz corretamente também é fundamental para a saúde do sistema da fala. ''Muitas pessoas forçam muito a voz porque não sabem usá-la. O correto é aprender a usar o diafragma para controlar a respiração e impor a voz, assim não é necessário gritar.''
Para aqueles que já desenvolveram os calos vocais, o tratamento depende do tempo do problema. ''Para casos de nódulos recentes, exercícios para respiração e limpeza. Com uma média de 14 sessões o problema acaba. Mas se o calo tiver muito tempo, às vezes é necessário uma cirurgia'', explica Jaqueline, alertando para a necessidade da prevenção. ''A voz para um professor é como a perna para um jogador de futebol. Tem que cuidar, exercitar, tratar os problemas. Assim ela não falha'', avisa.

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