Facilidades maléficas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2001
Vivian Ávila Pavan Especial para a Folha da Sexta 
Corpos bem moldados de modelos e atrizes nas capas de uma dezena de títulos de revistas vendem saúde. Mais que isso. Funcionam como uma poderosa vitrine, um estimulante para começar aquela dieta e incluir na apertada agenda um tempinho para a ginástica.
A correria frenética do dia a dia aliada à preguiça e, muitas vezes, ao peso que a mensalidade de uma academia acarreta no orçamento, contudo, são um verdadeiro balde de água fria em tanta animação.
Corpo mole O ortopedista Áureo Shizuto Cinagawa, membro da Sociedade Brasileira de Medicina Esportiva, tem outra justificativa para o corpo mole de um grande número de pessoas diante da atividade física.
Ele entende que a vida moderna tem feito com que o homem se afaste cada vez mais de suas aptidões físicas. Carro, computador, controle remoto e eletrodomésticos são importantes; vieram facilitar a vida do homem, mas têm reduzido em demasia uma série de movimentos físicos fundamentais para uma vida saudável.
Para o médico, muitas doenças da vida moderna são resultado da inaptidão física adquirida ao longo dos anos. Entre elas inclui-se a tendinite (ver box), uma inflamação dos tendões que atinge bancários e digitadores, entre outros profissionais. Com um corpo despreparado fisicamente, os distúrbios são agravados pela utilização incorreta de máquinas e equipamentos necessários à atividade profissional, como o mouse, o teclado do computador e a cadeira do escritório.
Manual de instrução Cinagawa critica a atitude de muitos médicos que prescrevem a caminhada de uma hora diária como atividade física. Isso é insuficiente, um engodo, um grande erro. Ele diz que é necessário exercitar-se integralmente, conhecer o próprio corpo. É preciso ler, informar-se, entender como funcionam o coração, o pulmão, as inter-relações entre corrente sanguínea, pressão e o trabalho muscular.
O aprendizado do funcionamento do organismo ou, como diz Cinagawa, a leitura do manual de instrução, deve começar ainda na infância, através da educação física ministrada por um pedagogo. Cinagawa considera que, além da prática, este profissional deve transmitir informações teóricas para seus alunos.
O ideal, justifica, é a prática esportiva bem orientada, fundamentada cientificamente, executada dentro dos limites fisiológicos e que proporcione benefícios sobre a base da constituição corpórea: nas crianças, promovendo a formação; o desenvolvimento nos adolescentes; a manutenção nos adultos e o equilíbrio nos mais velhos.
Qualidade de vida Há 26 anos lecionando educação física na rede particular e pública de ensino, Maria Keiko Kuniyochi credita ao professor de prática desportiva a responsabilidade pelo despertar na criança e no adolescente o prazer pelo exercício físico.
Sob este aspecto, as críticas à escola e profissionais da área de forma geral não são positivas. Para a professora, escolas não direcionam o aprendizado visando a conscientização para a busca da qualidade de vida. Entende, também, que professores não souberam e não sabem aproveitar conhecimentos para despertar no aluno a consciência de que é preciso ser ativo, estar sempre em movimento.
Assim como Cinagawa, Maria Keiko observa que o professor de educação física deve transmitir conhecimentos teóricos, científicos, aliados a aspectos práticos das aulas. Segundo a professora, a educação física é multidisciplinar envolvendo uma série de conhecimentos, entre eles, nutrição, biologia, anatomia, fisiologia e psicologia. O professor deve explicar porque manda correr cinco minutos. Aluno não é burro de carga.


