Exercícios para o corpo e a alma
Segunda-feira, sete horas da manhã. O tempo carregado de nuvens escuras e densas promete, desde muito mais cedo, um dia de chuva. Ainda assim, mais de 50 pessoas se reunem na Praça Nishinomiya, em Londrina, para fazer exercícios físicos. Do outro lado da cidade, a mesma cena se repete às margens do Lago Igapó 3: nem os mosquitos típicos de dias chuvosos espanta os adeptos fiéis de uma prática ainda desconhecida da maioria dos brasileiros.
Afinal, que esporte é esse que faz jovens, idosos, estudantes e trabalhadores acordarem tão cedo e encarar o mau tempo? É o tai chi chuan, arte milenar chinesa que promete o desenvolvimento da mente e ganho de habilidade física, unindo arte marcial e meditação em movimento. Extremamente popular nas praças da China, o tai chi agora invade os parques de várias cidade do mundo.
Em Londrina, ele foi trazido por imigrantes chineses que continuaram por aqui o hábito de praticar o esporte em locais abertos. ''Minha família veio de Taiwan há sete anos e sempre viemos no Igapó praticar tai chi. Aqui é bom porque tem espaço e é limpo. No começo vínhamos só meus pais e eu, mas as pessoas que passavam para caminhar se interessaram e resolveram nos acompanhar'', conta a estudante Jéssica Lai, 24 anos, que auxilia as pessoas na margem do Lago Igapó 3.
De acordo com ela, o tai chi tem uma forte relação com a teoria dos opostos Yin e Yang. ''O exercício trabalha o visível e o invisível, melhora o corpo, a postura, a respiração, ajuda a relaxar, dá energia para ficar bem o dia todo'', garante.
Todas essas qualidades são confirmadas pelos praticantes. A agropecuarista Ana Maria Barbosa de Oliveira, 56 anos, sempre praticou esportes e encontrou no tai chi a atividade completa. ''Já fiz balé, natação, corrida e há oito meses pratico o tai chi como complemento. É bom porque tem alongamento, trabalha a respiração, me dá paz. Eu saio daqui ótima para seguir o dia'', garante ela.
Os exercícios nos dois locais são gratuitos e as instrutoras preferem não ser tratadas como professoras. ''Elas não dão aula, na verdade. As pessoas é que resolvem acompanhar o exercício e vêm indicadas por amigos, parentes e vizinhos'', comenta Ana Maria.
A aposentada Izabel Moreira dos Santos, 60 anos, recebeu de uma amiga o convite para frequentar o grupo da praça japonesa. ''Eu não fazia nada de atividade física e estava com o diabetes muito alto. Aí li no jornal que é bom para a saúde e quando essa amiga me chamou, resolvi tentar. Hoje, o diabetes está mais controlado e me sinto muito melhor. Tenho que pegar ônibus até chegar aqui, mas não me importo. Acho que vale a pena'', garante.
Outra que viu em sua saúde a transformação causada pelo tai chi foi a manicure Edna Piva Gouveia, 48 anos. Devido à profissão, ela sentia muitas dores na coluna, que desapareceram com apenas um mês de atividade. ''Agora, trabalho sem sentir dor, melhorei a respiração, reduzi medidas e me sinto mais alegre. Meu marido, que teve uma doença muscular séria também melhorou bastante. O médico dele deu apoio total à prática do tai chi. Não perdemos nenhum dia'', afirma.
Mas nem só pessoas com problemas de saúde acabam se apaixonando pelos exercícios chineses. A administradora de empresas Michelle Berbert Santos, 31 anos, trocou a agitação da academia pela tranquilidade da praça ao amanhecer. ''Aqui me sinto mais centrada, mais calma. Quando saía da academia, estava sempre muito elétrica. Aqui saio relaxada. Consegui perder peso e percebo meu corpo mais certinho, com bumbum e barriga no lugar. Não troco isso aqui por nada'', garante.
O operador de estação aeronáutica Anilton Francisco dos Santos, 38 anos, é um dos poucos homens presentes na Praça Nishinomiya. Ele começou por curiosidade e diz que melhorou muito de um problema nas pernas. ''Sentia muitas dores e agora não tenho mais nada. Acho que os homens não vêm por preconceito, mas deveriam experimentar. A gente fica harmonizado, com o corpo funcionando melhor'', lembra.
''Cada movimento tem um significado e serve para ativar um órgão do corpo. O fato de fazer ao ar livre, ouvindo os pássaros também é muito legal'', comenta a advogada Eliane Tatsu Matsuo, 43 anos, que faz tai chi à beira do Igapó 3. ''Faço há um mês e já percebo melhoras. Antes fazia caminhada mas ainda assim me sentia cansada. Agora subo escadas sem problema nenhum'', completa a empresária Mercedes Ávila Garcia, 49 anos.





