‘‘Eu vou chamar o síndico...’’
A função de síndico é um abacaxi. É só ele aparecer que chovem reclamações. Mas será que vida de síndico é só amolação?
Francelino França

César AugustoMarcos Moratelli admite que para ser síndico é preciso um ‘‘baita bom senso para ouvir as conversas’’A figura do síndico é estigmatizada. O poder que ele possui nem sempre é entendido pelos vizinhos. O síndico ouve reclamações daqui e dali, acorda fora de hora, corre atrás de crianças, separa briga de vizinhos, toma conta de um dinheirão que não é dele e precisa estar disposto a servir. Muitos exigem do síndico onipresença e grande sensibilidade para entender o gosto dos moradores que, geralmente, têm interesses diferentes.
Ninguém, mais do que ele, sabe que viver em comunidade é sempre difícil. Paciência e vocação para trabalhar com a comunidade também são pré-requisitos para atuar nesta função. Problemas com crianças, carros e cachorros aparecem todos os dias. São tantas coisinhas miúdas...
Alguns síndicos (e suas respectivas mães) são frequentemente amaldiçoados. Muitos são conservadores ao extremo e querem repassar esse comportamento aos moradores, impondo horários rígidos para homens entrarem no prédio ou não aceitando solteiros como condôminos. Outra reclamação que pesa sobre eles é que muitos usam o cargo para ganhar destaque ou afagar o ego.

Milton DóriaCleonice Bandeira, no Residencial Nova Inglaterra: 320 apartamentos para administrar
Janela: Para esclarecer dúvidas existe o Disque-Condomínio: 330-2703Síndico mirim O dentista Marcos Moratelli exerce essa função há 8 meses no Solar Van Gogh . Ele, que é considerado um síndico atuante pelos 37 vizinhos do condomínio, reconhece que além de responsabilidade, é preciso um ‘‘baita bom senso para ouvir as conversas’’. Moratelli revela que assumiu o condomínio numa fase de abandono administrativo, o que exigiu algumas obras de manutenção. ‘‘Para tudo o que é de interesse comum eu faço reunião. A piscina do prédio, por exemplo, estava virando clube. Então decidimos em assembléia quem realmente é considerado visita’’, conta.
No condomínio existem 20 crianças e adolescentes vendendo energia. Para controlar os excessos foi instituída a figura do síndico mirim. Segundo Moratelli, isso melhorou o relacionamento das crianças com os adultos. ‘‘As crianças acham importante participar. Quando ocorre algum fato, eles me comunicam, ou ao vice-síndico’’, comenta.
‘‘Gosto de ser síndico porque gosto de arrumar soluções para os problemas. E, além disso, sou extrovertido, não sou do tipo que leva tudo a ferro e fogo’’, avalia Moratelli. Mas, para ele, não adianta possuir bom senso e boa vontade se o síndico não tiver conhecimentos de legislação trabalhista e de bons profissionais que prestam serviços como encanadores e eletrecistas.
Problemas No Residencial Jardim das Américas, o maior condomínio de Londrina, os problemas para administrá-lo são proporcionais ao tamanho. São 98 blocos, 1.424 apartamentos e aproximadamente 4 mil moradores. É uma minicidade que sobrevive sem a figura clássica do síndico. Lá existem administradores prestando serviços ao condomínio, em nome da empresa proprietária do empreendimento. Segundo Manuel Mota Neto, um dos administradores, o principal problema, atualmente, é a inadimplência de um terço dos moradores.
No Jardim das Américas, as questões de convivência também ocupam muito os administradores. Essas ‘‘pendengas’’ são encaminhadas para a administração do condomínio. ‘‘A orientação que damos é que as pessoas tentem resolver seus próprios problemas. Não havendo consenso entre as partes, aplicamos multa’’, explica. Para tirar a molecada de dentro dos apartamentos estão sendo projetadas escola de futebol e quadra de basquete.
Tempo de férias Há 18 meses, Cleonice de Oliveira Bandeira se candidatou ao cargo de síndica e venceu as eleições no Residencial Nova Inglaterra, zona sul de Londrina. A partir daí, sua vida se tornou agitada. Muitos acreditam que uma mulher nessa função se dedica mais ao cargo, é mais perseverante, compreende melhor e sabe ouvir mais.
Nos 320 apartamentos do Nova Inglaterra residem quase 200 crianças. E em época de férias, a tendência é aumentarem os problemas. O consumo de água cresce e a sujeira no pátio aumenta. Quando Cleonice aparece de surpresa, smpre ouve: ‘‘Olha a síndica’’, e uma turma de crianças se espalha correndo pelo condomínio. Segundo ela, a principal dificuldade para administrar é a inadequação de muitos moradores em cumprir o regulamento do condomínio.
‘‘Síndico não deve ser um xerife. Para se dar bem nesse cargo, ele deve ser correto, impor as normas que foram decididas por todos para que todos sejam tratados em pé de igualdade’’, analisa.
Existe coisa pior do que reunião de condomínio? Para Cleonice existe. ‘‘É ter de bater na porta do vizinho para chamar sua atenção’’. Nesse tempo de mandato, ela sentiu na pele o que é o estigma de ser síndica. Chegou a receber ligações e bilhetes anônimos de moradores inconformados com a atuação de um funcionário do condomínio.
Apesar disso, Cleonice acredita que está atingindo as metas a que se propôs. ‘‘Nesta função, aprendi muito. Conheci mais profundamente a parte financeira, documentos e, principalmente, aprendi a lidar com os diversos tipos de pessoas’’, acredita.

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