Eu, eles e o outro
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quinta-feira, 29 de agosto de 2002
Célia Guerra<br> Reportagem Local 
Quando o casamento chega ao fim, geralmente surgem muitos traumas e sofrimentos, há necessidade de mudanças e expectativas de um recomeço. Assumir um novo relacionamento é, para qualquer pessoa, um desafio. Para quem traz uma ''bagagem extra'' os filhos o processo é um pouco mais complicado e depende também da disponibilidade do parceiro.
Uma situação que se verifica com frequencia cada vez maior e tende a aumentar. Um estudo realizado pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, com base em estatísticas do IBGE, mostra que sete em cada dez matrimônios registrados no Brasil terminam em até dez anos. Sobre novos relacionamentos, a pesquisa aponta que uma mulher com menos de 30 anos e sem filhos se casa novamente três anos após a separação. Já a mulher que tem filhos espera um pouco mais, cerca de quatro anos e meio ou mais.
Nova vida A empresária Rosana Andrade, 47 anos, está separada há oito anos, depois de um casamento que durou 21 anos. O ponto de partida para uma nova vida, segundo ela, exigiu primeiro ''arrumar a casa'', ou melhor, construir uma identidade até então desconhecida: de uma pessoa sozinha. Rosana conta que começou a namorar aos 14 anos. Com 17 estava casada e aos 21 já tinha seus três filhos, Rafael, 28 anos, Bruna, 23 anos e Marina, 22 anos. Sua experiência de vida se resumia à vida em família. ''Precisei descobrir quem eu era, o que me importava e com o que me identificava''.
A separação foi um choque, pois sempre considerou que o casamento ia bem, sem brigas, desentendimentos ou desrespeito. Além de uma boa vida conjugal, ela era sócia do marido em uma empresa de sucesso. De repente, a separação. O choque foi geral: filhos, familiares, amigos, mas a vida precisava continuar, pois além da ''saúde emocional'' dos filhos havia uma empresa em jogo. Apesar de tudo, a separação foi entendida por todos como a melhor decisão.
A coragem com que encarou a nova vida até hoje ainda a emociona. ''Fazer o papel de vítima nunca foi o caminho, pois o que fiz até aquele momento me deixava feliz''. Rosana continua sócia do ex-marido e diz que convive muito bem com a nova família dele.
Um ano depois da separação, quando se sentia ''bem resolvida'', Rosana iniciou novos relacionamentos ''ocasionais'', como considera, com pessoas de seu convívio profissional, alguns até de outras cidades. Com os filhos ela não teve problemas. A caçula, que na época da separação tinha 14 anos, sempre foi quem mais a incentivou a buscar uma nova vida. A empresária acredita que a forma como conduziu a educação, com muito respeito, favoreceu a harmonia.
Ela namora há oito meses um empresário da cidade, também separado e que tem filhos. A convivência das famílias para ela é a melhor possível. ''Tudo o que me ocorreu encarei como novas oportunidades''. Ambos não têm a pretensão de se casar, ''nosso estado civil é 'namorados''', brinca.
Para a contagiante alegria de viver que possui, Rosana dá uma dica que classifica como prevenção: '''É preciso estar o tempo todo em dia consigo mesma, com os filhos, com a profissão, com os relacionamentos. Aí tudo fica mais fácil''.
Casamento marcado Uma relação harmoniosa do novo parceiro com os filhos, também é comemorada pela médica Cássia Regina Guimarães, 37 anos. Ela está separada há cinco anos, depois de um casamento de 10 anos. A médica tem dois filhos: Lucas, 12 anos e Vítor, 7, e também iniciou novo relacionamento um ano depois de separada.
Para os filhos, Cássia sempre fez questão de dizer que ela e o pai deles não estavam preparados para o casamento e por isso a vida a dois não deu certo. Mas garantia que acreditava na reconstrução de sua vida, de uma nova família e que seriam felizes. Depois de dois namoros, Cássia se prepara para um novo casamento, no final do mês de setembro.
Apesar da harmonia, ela revela que passou por situações de ciúme. ''Eles tinham medo de que o lugar do pai fosse substituído''. Cássia conta que sempre deixou claro que tinham um pai e uma mãe muito presentes, e que a separação havia atingido o casal homem e mulher e não o pai e a mãe. ''Se você tem uma boa postura moral nada impede de buscar a felicidade'', resume.
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