Ter apenas um filho não deve ser mais motivo de tantos receios por parte dos pais. Embora ainda se fale muito que ele recebe atenção excessiva e, pela ausência de irmãos, torna-se egoísta, exigente, dependente e temperamental, atualmente, especialistas colocam em cheque essa idéia.
  Há poucas décadas, filho único era considerado anomalia. No século 21, no entanto, aumenta a freqüência de famílias com apenas um rebento. Isso tornou-se praticamente regra entre casais com rendimento mensal acima de cinco salários mínimos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
  Dentro desse universo de renda, o número médio de filhos é de 0,8 por casal. Bem abaixo da média européia, considerada uma das menores do mundo, que é de 1,5 filho por casal. Conforme o Censo 2000, a opção pelo filho único também predomina entre mulheres de maior escolaridade. Em contrapartida, quatro é a média de filhos entre mães sem instrução ou com menos de um ano de estudo.
PesquisaPara avaliar o impacto de ser filho único em características de relacionamento com amigos e pais, desempenho escolar e comportamento social, um grupo de professores e alunos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul realizou uma pesquisa entre 2000 e 2001. Nesse estudo, foram entrevistados 360 adolescentes do terceiro ano do ensino médio de uma escola privada de Porto Alegre.
  Resumidamente, os resultados mostram que os filhos únicos, em comparação aos que possuem irmãos, têm melhor desempenho escolar, expõem-se menos à intoxicação alcóolica e têm bom relacionamento com os pais. Notou-se também que não há nenhuma dificuldade na capacidade de socialização entre eles, segundo observa um dos coordenadores da pesquisa, Luís Augusto Rohde, professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
  ‘‘Nossos resultados sugerem, portanto, que ser filho único não está associado a um pior desempenho em diversas áreas do desenvolvimento e não confirmam o estereótipo de que eles apresentariam problemas de personalidade mais freqüentemente do que as crianças com irmãos’’, conta Rohde.
Socialização‘‘Hoje, se vê com maior naturalidade a questão do filho único, mas não deixa de ser uma preocupação constante entre os pais, que querem oferecer uma educação mais equilibrada e sem tantos privilégios’’, observa a psicopedagoga Silvia Amaral de Mello Pinto, coordenadora do Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento (CAD – site é www.cadnett.com). Entre as mudanças, se começa também a questionar a crença de que ter um irmão ajudaria a socialização da criança.
  Para a psicopedagoga, há muita criança com irmão que não aprendeu a partilhar ou que são autoritárias e inflexíveis. ‘‘Tudo depende de como os pais vão educá-la’’, avisa Silvia. ‘‘Claro que o filho único terá mais regalias, mais atenção, mas com algumas atitudes simples dá para evitar que ele fique supermimado.’’
  Não mimar demais é uma das principais preocupações das famílias com apenas um filho, tal como a dos dentistas Orlando Cêpa, de 46 anos, e Lea Alves, de 42, pais de Isabella, de 11. É um receio, principalmente, de Orlando, filho único e mimado assumido. ‘‘Quando era moleque, percebi na convivência com os amigos que tinha umas frescuras que os outros não tinham, como ciúmes das minhas coisas. A partir daí comecei a mudar minhas atitudes. Por isso fico mais atento à minha filha.’’
  Lea também se preocupa com a questão, mas não excessivamente. ‘‘Estimulo a convivência com outras crianças, seja trazendo amigos para nossa casa ou deixando que ela durma na casa de amigas, assim como a motivo a praticar esporte’’, diz. A filha Isabella pratica ginástica rítmica.
Custo assustadorVinícius Fiori Nipote, de 11 anos, chegou a imaginar que seria bom ter um irmão para brincar em casa, mas ele não tem do que reclamar: ‘‘Há muita coisa boa em ser filho único, como jogar vídeo game quando quiser e não ter ninguém para mexer na minha coleção de Yu-Gi-Oh!. Sem contar que seria um problema para minha mãe ter de comprar as mesmas coisas se tivesse outro filho.’’
  Realmente, os gastos com filhos estão assustadores. O professor de Finanças da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP), Fábio Gallo Garcia, calcula que, hoje, uma família de classe média gastaria com um filho, do berçário até a faculdade, cerca de R$ 400 mil. ‘‘Esse valor dobraria se o casal tivesse dois filhos’’, observa Garcia. ‘‘Como o custo é alto, muitos pais acabam concentrando as chances de oferecer uma boa educação para uma única criança.’’ Explica-se, portanto, esse boom de filhos únicos.

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