Eternamente preto - Uma mulher só precisa de duas coisas: um vestido preto e um homem que a ame (Coco Chanel/1883-1971
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quinta-feira, 30 de abril de 2009
Vera Fiori<br> Agência Estado 
De acordo com manuais de receitas prontas, os tons escuros carregam uma série de significados: dor, luto, introspecção, austeridade, rebeldia, mistério, inserção em grupos, timidez. Segundo o Dictionnaire Des Symboles, o tom negro mostra que o homem entra em contato com seu próprio universo instintivo primitivo, o qual é preciso ser domesticado e cujas forças devem ser canalizadas para objetivos mais elevados.
Para o cenógrafo Cyro Del Nero, no teatro, as cores escuras ressaltam a seriedade das personagens. ''Emprestam à personagem a dignidade sugerida pelas palavras do autor.'' Segue por essa mesma trilha o psicanalista Jorge Forbes, que costuma usar o preto em suas palestras para colocar a força da palavra e do gesto em primeiro plano. ''O preto é uma forma de privilegiar o que está sendo dito e diminuir os outros códigos'', pondera.
Essa cor reina absoluta, e não é de hoje. No livro ''O Brasil no Tempo de D. Pedro II'', o autor Frédéric Mauro observa que os europeus que vinham para cá eram desencorajados pelos lojistas parisienses a comprar trajes claros de linho, porque o costume em terras brasilis era seguir à risca a moda da corte, ou seja, usar o preto fechado.
Na literatura, Horace Walpole, aristocrata e romancista inglês do século 18, inaugurou um novo gênero literário de ficção, o chamado romance gótico. A ele se seguiriam Clara Reeves, Anne Radcliffe, Walter Scott, Baudelaire, Byron, Edgar Allan Poe e Mary Shelley, autora de ''Frankenstein''.
Na música, a cor das trevas encontra um campo fértil no rock. Durante a virada dos anos 1970 para 1980, as ilhas britânicas revelaram ao mundo bandas como Siouxsie And The Banshees, The Cure, Bauhaus e The Sisters Of Mercy, grupos influenciados pela explosão do movimento punk dos Sex Pistols.
Simplificação
Pelo Studio Berçot, em Paris, passaram nomes consagrados da moda brasileira, como Reinaldo Lourenço, Glória Coelho, Lorenzo Merlino e outros. Sua diretora, Marie Rucki, esteve mês passado em São Paulo para palestras e workshops no Shopping Iguatemi. Invariavelmente vestida de preto, Marie considera o preto eterno porque corresponde a uma certa simplificação. ''Com o negro, todo mundo está sempre correto, é prático.'' Por que sempre usa preto? ''É preciso tempo para pensar nas cores, eu não o tenho; e, além disso, o negro, sendo uma não cor, permite uma atitude mais livre diante de uma atividade criativa.''
Quase sempre vestida de preto, a estilista Gloria lembra que, quando se trabalha há muito tempo com moda, o uso de tons escuros cria um efeito neutro no ambiente carregado de cor. ''Além do que, numa cidade como São Paulo, estamos expostos à poluição e, com o preto, não nos sujamos, a cor emagrece o visual, e estamos sempre prontos para qualquer compromisso.''
Na esfera do comportamento, segundo Glória, os que vestem preto são pessoas que denotam uma maior sensibilidade e liberdade de expressão. Cita como exemplo a artista plástica Tomie Ohtake, que, sempre de preto, não ofusca o colorido de suas telas.
Elegância certa
A editora do site Todamodanews, Deise Sabbag, lembra uma alfinetada do costureiro Dener sobre a ex-primeira-dama Maria Tereza Goulart: ''O que ela fez foi um crime. Poderia ter usado um tailleur preto, grafite ou marrom. Mas ser exilada de turquesa...''
Segundo Deise, a cor minimiza as chances de erro - ''é igual a café, vai sempre bem, em qualquer tempo e ocasião'' - e dá a sensação de acerto. ''Adoro (o preto), não interfere no meu astral. Nada mais fashion, chique, sedutor, dramático, misterioso.''
É uma questão de gosto - e gosto não se discute. ''Ignore definições de que a tonalidade deprime, enquanto outros avaliam que ela comprime, ou seja, disfarça melhor a gordurinha nossa de cada dia. Você não vai derramar lágrimas nem vai afinar sua silhueta porque está de preto. O que vale é se assumir, se gostar, fazer o que bem entende'' , acrescenta ela.
Eliana Penna Mortari, da grife Lita Mortari, brinca quando diz que o preto é a cor da preguiçosa. ''É uma cor que salta do armário porque facilita a combinação''. Comenta que, lá fora, o clima pede o uso de cores vivas. ''A Itália, por exemplo, é o país da estampa. Porém, acertar na coordenação de tons fortes exige tempo e habilidade, ao contrário do preto e da gama de beges, cáquis e branco.''
Simbologias
Com exceção da chiquérrima e macabra personagem Mortícia Adams, alguém concebe uma noiva de preto? A cor branca impôs-se no casamento burguês depois de 1880, carregando simbolismos ligados à pureza e inocência, o que se desejava para a noiva.
O mesmo vale para outro rito católico, a primeira comunhão. Porém, os significados mudam de acordo com a cultura de cada país, como observa Cyro del Nero, cenógrafo e professor titular do Departamento de Artes Cênicas da Universidade de São Paulo (USP). ''A cor é uma questão de geografia. Aqui o branco é pureza, virgindade, matrimônio e santidade. No Japão, a figura toda branca do teatro Nô é a morte. A flor da morte, para nós, é a flor branca. Na Arábia, são as cores douradas''.
Na moda, quem tornou célebre o vestidinho preto foi Coco Chanel, que deixou para sempre um conceito, um axioma brilhante: ''Uma mulher só precisa de duas coisas: um vestido preto e um homem que a ame.''
Segundo Cyro, a roupa preta nunca sai de cena no vaivém das coleções de moda. ''O preto veste como um escultor que adoça as linhas do corpo que esculpe. Desaparecem os acidentes dos perfis e o todo flui sem acidentes. O preto realmente cobre o corpo e dá uma elegância que não existiria sem ele.''
Escolha pessoal
Durante um período de sua vida, a cantora Maysa só vestiu preto, o que reforçava ainda mais a aura dark de musa da música de fossa. Mas nem sempre a escolha do guarda-roupa é pautada por turbulências pessoais, como coloca a cantora Marina de La Riva, cujo guarda-roupa é composto por 90% de peças escuras. ''Acredito, sim, que nossas escolhas refletem o que sentimos ou racionalizamos. Mas também entendo que a cor indica, mas não define. Uma garota usando rosa-bebê pode ser rebelde ou tímida. E uma pessoa de preto pode muito bem ser segura e extrovertida. Falando de mim, com certeza, se eu estiver introspectiva não vou colocar amarelo... O máximo, se não estiver de preto, será um azul-escuro ou cinza-chumbo'', confessa Marina.
Indagada sobre uma possível admiração por personagens de alma dark, cita o próprio avô, Fernando de La Riva, líder dos exilados cubanos em 1964. ''Um escorpiano dark.''


