Eternamente criança
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 06 de dezembro de 1996
Francelino França 
Os homens imaturos são em maior número do que se possa imaginar. Muitos chegam à meia-idade e se dão conta que a vida foi uma sucessão de fracassos. Mas vão continuar deixando os problemas para ser resolvidos depois. É mais confortável. Seu traço marcante é a relação de dependência com a família. Mas não pára por aí. As características psicológicas de um adulto imaturo se apresentam em infinitas facetas. A psicoterapeuta londrinense Nione Torres afirma que em 12 anos de trabalho clínico, percebeu que muitos homens se enquadravam neste perfil. A partir de observações clínicas e dados de pesquisas, a psicoterapeuta enumera os comportamentos encontrados naqueles que vivem com medo de crescer, ou seja, são atacados pela Síndrome de Peter Pan.
Primeiramente, o homem imaturo faz com que o mundo gire ao seu redor. Seu mundo próprio tem características infantis, embora ele viva numa fase adulta. Segundo Nione, a chave para a imaturidade tem um nome bastante conhecido: irresponsabilidade. O homem imaturo tem dificuldades em lidar com as próprias emoções. Quando ele precisa expressar algum sentimento como a alegria, geralmente ela vem acompanhada de histeria. Quando jovem, ele apresenta conflitos, principalmente com a mãe, e também é influenciado facilmente por companheiros.
Outra característica: o homem imaturo não admite ter cometido erros, nem para si mesmo. Assim, é claro, não precisa se desculpar. Os problemas que surgem ao longo da vida, ele procura adiar. Nas relações sociais, as amizades nunca se aprofundam. Entretanto, ele sente uma desesperada necessidade de pertencer a grupos.
No campo sexual, os conflitos também são emergentes. Ele pode chegar aos 20 anos ainda virgem. E quando se casa, sente sérias dificuldades de encarar um relacionamento com mulheres de personalidade marcante, que o tratem de igual para igual. Por isso, quase sempre, não valoriza a mulher e a desrespeita.
Este quadro nada animador acaba gerando solidão e ansiedade latentes, numa tentativa de camuflar a própria angústia. A sucessão de fracassos ao longo da primeira metade da vida, nem sempre é percebida. A irresponsabilidade, juntamente com o vício de adiar os compromissos geram instabilidade em empregos e profissões e irrealizações financeiras.
Na década de 90, uma nova versão de imaturos foi identificada como Geração X, pegando carona em muitas dessas características. Essa geração têm hoje entre 20 e 35 anos e vive uma crise mais crônica que aguda. Sofre de uma certa dificuldade de expressão. A diferença comportamental da Geração X é o culto à solidão gerado por grandes expectativas em relação aos outros.
O homen imaturo sente sérias dificuldades de encarar um relacionamento com mulheres de personalidade marcante, que o tratem de igual para igual
A psicoterapeuta Nione Torres, além de descrever o perfil psicológico do homem imaturo, explica à Folha da Sexta alguns motivos que levam o homem a usar este escudo da imaturidade para obter proteção emocional.
Folha da Sexta Qual a parcela de responsabilidade dos pais no processo de maturação dos filhos?
Nione Torres Grande parte dos problemas emocionais deve-se a um manejo equivocado da criança por parte dos pais. Muitas atitudes deles serão sentidas e apreendidas com muita intensidade pela criança, mais do que qualquer outra pessoa. Não há pais perfeitos, nem devem existir. Isto não os isenta da responsabilidade de formar filhos que um dia serão adultos amadurecidos emocionalmente.
Folha da Sexta O adulto imaturo copiou, inconscientemente, o modelo de comportamento dos pais?
Nione Não necessariamente. Ele reproduz modelos através de condutas inadequadas dos pais, que por sua vez têm dificuldades de expressar afeto, e não apresentam consistência na hora de passar normas e valores. Além disso, esses pais possuem instabilidade emocional e estimulam dependência.
Folha da Sexta É uma relação de dependência doentia?
Nione Comportar-se imaturamente não ameaça a vida, portanto, não é nenhuma doença. Mas, com certeza, põe em risco a saúde emocional da pessoa, assim como daqueles que com ela convivem. Observa-se neste fenômeno, tido como sociopsicológico, que a pessoa tem comportamentos de dependência mais acentuados em relação à mãe. Apresenta desejos de libertar-se da influência materna, todavia sente-se culpada quando tenta. Quase sempre há tensão no ar quando estão juntos. Geralmente é o filho mais velho ou é o único filho do sexo masculino, de uma família quase sempre tradicional, que pode se tornar adulto imaturo.
Folha da Sexta Existe uma saída ou um caminho preventivo?
Nione Se o adolescente tiver menos de 16 anos, a atuação é mais preventiva. Se tiver mais idade, as medidas são curativas. Conversar ainda é a melhor estratégia. Como medida preventiva, os pais devem discriminar entre regras negociáveis e não negociáveis com os filhos. As primeiras são abertas a discussões e mudanças, como horário de chegar em casa. As últimas são inflexíveis, e neste caso se enquadram o desrespeito, a mentira e a trapaça. Se o filho apresentar comportamentos responsáveis próprios da idade, os pais deverão incentivá-los naturalmente. Não impor punições uma após a outra é um caminho, além de respeitar as queixas infantis, pois quase sempre elas são verdadeiras.
Folha da Sexta Mas a convivência com regras e limites não é uma das dificuldades na educação?
Nione Estabelecer limites com vigor e disciplina racional é uma tarefa difícil. Mas a ausência deles leva à falta de realismo. A presença de limites estimula a criança ao comportamento de autocontrole, indispensável para o desenvolvimento sadio. Assim, aprenderá que o fracasso é parte da vida, assim como a tristeza.
Folha da Sexta Imaturidade em adolescência e adultos está ligada à geração da liberdade?
Nione Não há dados de pesquisa neste sentido. Talvez esses adolescentes tiveram uma educação quando os métodos educativos estavam sendo bastante questionados, podendo ter gerado insegurança nos pais quanto a transmissão de padrões de certo e errado, bom e ruim.
Folha da Sexta Qual é a fase mais crítica para o homem?
Nione A fase destrutiva no homem tem o ápice na meia-idade. Mas deve-se considerar que ao chegar aos 35/40 anos, esse homem recusa-se a procurar ajuda. Os adultos imaturos emocionalmente assinalam, quase sempre, que seus problemas estão bem encarados, pois conseguiram se acasalar. Isso é uma grande distorção da realidade, pois confundem a simples relação com a intimidade autêntica. Muitas vezes, eles terminam por simular uma situação falsa e destrutiva. Entram em relacionamentos afetivos ou casamentos sem medir sua verdadeira capacidade para assumir as responsabilidades que um casamento verdadeiro implica. Depois de um final de relacionamento, eles crêem que no próximo tudo se ajustará.


