Estufa aqui, aperta ali
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quinta-feira, 07 de março de 2002
Rosângela Vale 
Cintura de vespa, seios fartos, quadris largos, pés pequenos, magreza absoluta... Mais do que modismos, os padrões de beleza aos quais a mulher se submeteu ao longo da História moldaram seu corpo aos desejos de cada época. E a moda, sua aliada desde tempos remotos, também foi seu pior carrasco, pois serviu de instrumento de dominação pelos que detinham o poder.
Foi assim desde a Idade Média, quando a Igreja era a instituição suprema e inquestionável. A mulher tinha como referencial de beleza a Virgem Maria. Os vestidos lembravam trajes de gestante e elas costumavam segurar tecidos na frente do corpo para reforçar essa aparência, observa Dorotéia Baduy Pires, coordenadora do curso de Estilismo em Moda da UEL e mestra em Educação pela PUC/PR.
Mais à frente, início do século 19, durante o Império, as roupas femininas refletiam as conquistas do mais aclamado estrategista da época. A referência eram as estátuas gregas e egípcias saqueadas por Napoleão Bonaparte. As mulheres usavam vestidos longilíneos, de musseline, que tinham que passar por dentro de um anel para comprovar a leveza ditada pelo padrão vigente, explica Dorotéia.
Espécies diferentes Mas foi em meados do século 19 que a moda exigiu os maiores sacrifícios femininos. Na época, a coisa mais trágica que poderia acontecer com a mulher era ficar solteira. Pior até do que ser prostituta. Para garantir sua sobrevivência e segurança, ela tinha que se casar. E para arrumar esse provedor, dentro de todos os limites morais daquele tempo, ela precisava seduzir. Suas únicas armas eram os decotes insinuantes, a cintura de vespa, os quadris de parideira. Mas, observe: ao mesmo tempo em que ela se dava, com os seios opulentos à mostra, ela se negava, com aquela imensa saia, estruturada pela crinolina, que cobria até os pés. Parecia que debaixo não havia pernas, e sim uma massa compacta. A ponto de um historiador dizer que se um alienígena visitasse a Terra na época, acharia que homens e mulheres eram de espécies diferentes, afirma ela.
O espartilho, maior responsável pela silhueta desejada, causava danos irreparáveis à saúde. Dorotéia observa que nas autópsias realizadas na época, os médicos constataram que as costelas das mulheres chegavam a se cruzar e elas morriam precocemente por causa disso. Além das deformidades que causava aos órgãos internos, o espartilho impossibilitava a respiração, agravando ainda mais o conceito de fragilidade do sexo feminino. Tanto que, para muitos historiadores, a peça representou o auge da dominação do homem sobre a mulher.
Imagem masculina À medida em que a mulher começou a conquistar alguns direitos, lá vem a moda para dificultar o processo, limitando seus movimentos. Sai o espartilho no início do século 20, (mérito do estilista Paul Poiret) e entra a saia entravada, bem estreita e afunilada nas pernas, que impedia as pobres coitadas de darem passos maiores que cinco ou oito centímetros. Chanel chegou para dar liberdade à mulher na hora exata em que ela sentiu necessidade de se movimentar. Mas, para legitimar a sua saída do lar, as mulheres precisaram de uma referência, e passaram a adotar a imagem do homem. Nos anos 20, a moda era usar modelador para achatar o corpo e conseguir a silhueta da moda, que era a masculina, explica Dorotéia.
Ela ressalta que hoje, apesar de todas as conquistas, a mulher séria e competente ainda acha que deve ter uma imagem masculinizada. Basta perguntar a uma delas qual a melhor roupa para uma entrevista de emprego. A resposta será: terninho. Outro retrocesso, segundo Dorotéia, foi o New Look criado por Christian Dior no final da década de 40, pois tentava resgatar a silhueta opressora do século 19.
Hoje, a tal ditadura fashion já não é tão ferrenha e a variedade de estilos está aí, para que a mulher escolha o que mais lhe convém. Sinal dos tempos, afinal, a moda já não é a sua única aliada de beleza. Para moldar, tapar e ressaltar partes do corpo, existe hoje uma série de alternativas: ginástica, cremes rejuvenescedores e, é claro, cirurgia plástica. Mas a mulher, infelizmente, ainda é vítima de padrões pré-estabelecidos que continuam causando danos a sua saúde.
Os estragos que o espartilho causou no século 19 são equivalentes aos distúrbios alimentares de hoje, provocados pelos padrões estéticos de magreza, observa Dorotéia, citando a bulimia a anorexia que atingem, sobretudo, adolescentes que buscam as medidas das top models. Ela informa que, há 30 anos, as modelos pesavam 8% menos do que a média. Hoje, o peso é 23% inferior.


