Estimular para despertar
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sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 
É certo que as experiências vividas na infância podem favorecer futuras escolhas, mas isso não significa que as habilidades surgem logo assim, junto com os primeiros passos.
Há aqueles, é claro, que já nascem artistas e têm a sorte de descobrirem isso desde cedo; outros, precisam recorrer aos famosos testes vocacionais para descobrir o que o futuro lhes reserva.
O fato é que não existem fatores determinantes que possam apontar uma vocação na fase de desenvolvimento da criança; porém, alguns estímulos proporcionados no ambiente escolar e familiar podem transparecer certa inclinação para uma aptidão.
Pensando na atmosfera educacional, o questionamento da forma como o educador e a escola podem incitar as habilidades de uma criança levam a uma possível resposta sobre as escolhas que elas farão no futuro.
Especialistas entrevistados pela revista Veja (ed. 2.138) afirmam que as pessoas não devem levar em conta somente as habilidades, mas o interesse e o sentimento que as permeiam e que geralmente são despertados por atividades e experiências.
E é principalmente na infância, segundo o neuropediatra Mauro Muszkat, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo, ''que as bases biológicas das habilidades são estimuladas e esculpidas''.
Ainda de acordo com o especialista, ''a família e a condição socioeconômica têm um peso enorme nesse processo. E quanto mais espaço a criança tiver para experimentar e expressar seus gostos, melhor''.
Para Ana Tereza Gôngora de Lucca, psicopedagoga mestre em educação, de Londrina, os estímulos abrem um leque de possibilidades para as crianças e alguns direcionamentos podem despertar certa aptidão.
''É muito sério determinar qualquer vocação desde a infância. O que a escola e educador devem trabalhar é na oferta de pertinência, criatividade, riqueza cultural, ou seja, diversidade para a criança'', explica ela.
Na Escola Apoena, onde Ana é coordenadora pedagógica, os meninos e meninas experimentam, desde o berçário, sensações em contato com a natureza, a música, além de histórias e brinquedos confeccionados por alunos do ensino fundamental.
''Desde cedo, as crianças são pesquisadoras. Elas querem explorar, criar, fantasiar e questionar. E esse tempo deve ser priorizado, não só pela escola, mas pela família também'', diz.
A diretora da mesma escola, Gisele Favoretto de Oliveira, reforça que essas práticas e o contato com especialistas de diversas áreas não só estimulam os alunos, mas também trazem uma linguagem diferente da usada pelo professor, com a qual estão acostumados.
''Um adulto sensível consegue enxergar as potencialidades de cada criança e cabe a ele, estimular essa inclinação. Porém, vale lembrar que muitas vezes, isso é destruído por não ser o desejo dele. Se a criança não viver experiências, ela não vai produzir o conhecimento significativo'', afirma.
Para Ana, os pais e os educadores não devem projetar profissões ou garantir alguma habilidade para os filhos, pois a criança deve viver outras possibilidades e experiências ricas e prazerosas, para que, quando adulta, possa resgatar isso pelo simples fato de já tê-las ter vivido'', ressalta.
Na casa da família Heim, a pequena Beatriz, de 5 anos, possui uma agenda diária de gente grande. Além da escola, ela faz aulas de balé, tênis, natação e piano. E a resposta, está na ponta da língua: ''Eu gosto de fazer tudo, e ano que vem quero jogar basquete também'', diz.
A mãe, Maialu, diz que todas as atividades partiram do interesse da filha. ''Eu vejo que ela faz tudo com muita vontade e prazer, pois em nenhum momento ela é forçada a praticar essas aulas. Eu acho que se os pais têm condições de oferecer o que o filho demonstra ter interesse em fazer, é o melhor caminho para ele fazer a própria escolha, futuramente'', diz ela, que se preocupa em não sobrecarregar a filha com os afazeres. ''No momento em que eu perceber que Beatriz está cansada ou estressada por conta das atividades, ela terá de fazer uma escolha'', revela.


