Estilo nacional
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 17 de agosto de 2000
Angela Raizer Barbosa 
Já houve um tempo que para comprar móveis assinados por designers era preciso ter um bom conhecimento na área e uma conta bancária considerável. Coisa de ricos cosmopolitas e descolados. Com a liberação das importações, globalização, acesso à informação virtual, objetos de desenho assinado tornaram-se acessíveis à classe média, permitindo, inclusive, que alguns profissionais brasileiros investissem na criação de peças de produção limitada, revelando talento no design de mobiliário.
Entretanto, a existência de criatividade no design nacional não é de hoje. No início deste século, arquitetos e marceneiros já imprimiam um estilo próprio as suas criações. É o caso de Celso Carrera (criador da cama patente, em 19l5)), Gregori Warchavchik, John Graz e Joaquim Tenreiro, que produziam mobiliário com características nacionais, fazendo uma leitura do art-decô dentro de conceitos modernos. Tenreiro, principalmente, com o conhecimento histórico da marcenaria, racionalizava o uso da madeira misturando-a a outros materiais como a palhinha. Com isso, os excessos neo-barrocos do mobiliário que entravam na casa dos brasileiros começaram a definhar.
Mais limpo e leve, o novo estilo acabou pegando carona na Bauhaus (fundada em 1919), escola de design alemã que pregava que a forma de um objeto deve derivar da função. Com isso, outros arquitetos brasileiros foram aderindo ao mobiliário assinado, até pela necessidade de ver habitados os espaços que projetavam. Dos anos 40 a 70, principalmente, essa necessidade de integrar arquitetura e design era muito enfatizada. Oscar Niemeyer é referência desse período. Já Lina Bo Bardi, Gian Carlo Palanti e Paulo Mendes da Rocha também racionalizavam o uso da madeira, dando uma dimensão menor e mais leve às peças que criavam na década de 50. Assim, o moderno vira moda e a indústria se vê obrigada a investir na criação nacional.
Para imprimir leveza, no final dos anos 40, o arquiteto Zanine Caldas começou a utilizar o compensado em suas criações; Michel Arnoult produzia móveis semiprontos no estilo faça você mesmo, vendidos até em bancas de revistas. Em 1957, Sérgio Rodrigues causou furor ao lançar a famosa poltrona mole reproduzida no mundo inteiro.
Sem dúvida, a virtude dessas criações está na busca da originalidade num campo em que proliferavam (e ainda proliferam) as cópias. É claro que mesmo no design contemporâneo encontramos traços de algumas peças modernistas deste século, mas sempre adicionadas de um toque criativo, nacionalizado na concepção ou nos materiais.
Hoje, profissionais como Arthur de Mattos Casas, Carlos Motta, Etel Carmona, Fulvio Nani, Adriana Adam criam móveis contemporâneos preocupados com forma e função. Um fator característico é a simplicidade nos desenhos, permitindo maior mobilidade de combinação às peças, que podem se misturar a outros estilos.
Mas não é preciso ir para São Paulo para encontrar peças de autores. Em Londrina existem lojas que comercializam esses produtos, sejam eles nacionais ou importados. E os próprios arquitetos locais nos levam a uma visão surpreendente desse mobiliário exclusivo, pensado tanto em termos funcionais quanto decorativos. No design de móveis, eles estabelecem uma relação com a história do meio com o qual trabalham e acabam criando um mobiliário sob medida para cada projeto de interiores.
Exemplo disso é o trabalho dos arquitetos Marcos Maia e Gilmar Mazari, que criam peças específicas para os ambientes que projetam. Entre as criações mais recentes está a cadeira Samurai, projetada para a MDI Office 2000. Em madeira ebanizada, a cadeira revela-se uma criação bem-sucedida de desenho minimalista, com uma relação específica no espaço para o qual foi criada.
Consultoria: arquitetos Marcos Maia e Gilmar Mazari


