O Brasil descobriu o pernambucano Eduardo Ferreira há três anos, durante os desfiles do Phytoervas Fashion, mas o estilista já havia descoberto e se apaixonado pelo País há muito tempo. Desde que começou a esboçar os primeiros traços, seus desenhos refletiam as referências folclóricas a sua volta. Filho de pai tecelão e mãe artesã, divulgar a cultura logo se tornaria um compromisso pessoal. Trabalhando por seis anos como arte-educador, lutou para inserir o contexto cultural do Estado nos currículos escolares. Mas foi através da moda que ele conseguiu expressar, de forma mais contundente, a imensa riqueza mitológica, iconográfica e arquétipa que traduzem o Brasil.
Foto: divulgaçãoModelo da coleção ‘‘Veredas’’, mostrada na última edição da Semana de Moda, mês passado, em São PauloEssa consciência nacional em forma de roupa não passou desapercebida pelo francês Patrick Girault, sócio-diretor de um dos mais importantes escritórios de moda do mundo, que esteve em São Paulo mês passado, durante a Semana de Moda, garimpando talentos para representar o Brasil na temporada oficial de desfiles no Carrosel do Louvre, em outubro. Colorida e repleta de elementos regionais, como palha, renda, pena de pavão, rede de dormir, couro bordado e balaios, a coleção Veredas apresentada no evento, é uma referência a Guimarães Rosa, mas é também uma metáfora da trajetória do estilista.
Veredas significa, literalmente, ‘‘estreitos caminhos em lugares secos que levam à água’’. E Eduardo sabe que o caminho que escolheu para a sua moda é difícil, pois o perigo de ser demasiadamente folclórico está sempre à espreita. Mas isso não o assusta. ‘‘Quero me aprofundar nessa busca da identidade, mesmo que para alguns pareça piegas ou um discurso ufanista. Todos os grandes pólos de moda do mundo só se firmaram porque se antenaram com a coisa da raiz, do histórico. Moda é isso, um reflexo da cultura’’, define.
Consumo diferenciado Para Eduardo, o nordeste é um celeiro de tradições que acaba refletindo o Brasil. Sua moda, portanto, tem a cara de sua terra, mas tem também a cara do Brasil e do mundo já que, ao expressar valores nacionais, ela pode ajudar o País a ser reconhecido lá fora. Essa filosofia o acompanha desde a sua primeira coleção, batizada de Mangue Fashion, uma referência ao movimento musical Mangue Beat, criado por Chico Science e Fred 04. E vem se fortalecendo cada vez mais, através de projetos dos quais participa.
Karla Matida‘‘Quero me aprofundar nessa busca da identidade. Mesmo que para alguns pareça piegas ou um discurso ufanista’’, diz Eduardo FerreiraO trabalho atual, de consultoria e pesquisa, em parceria com Cristina Franco, permite que ele conheça várias regiões brasileiras. ‘‘Chamo de codificação nacional da moda. Pesquisamos cada região e depois transformamos em roupa. Isso serve de parâmetro para a indústria’’, conta ele, que no ano passado ficou três meses no Pantanal. ‘‘É um trabalho muito próximo da Sociologia e da Antropologia. São linguagens e referências ainda não tão constantes no universo da moda brasileira, mas é um caminho’’, aponta.
Autodidata, Eduardo começou a carreira fazendo figurino para teatro. Depois, vieram os workshops com Madame Rucki, do Studio Berçot, de Paris. ‘‘Não fiz escola de moda, e talvez uma das minhas maiores deficiências seja a falta de um método específico, porque ainda crio muito organicamente’’, avalia. Mas isso não conta para os fãs de seu inconfundível estilo, como os cantores Carlinhos Brown, Marisa Monte, Tom Zé e Otto. ‘‘Ainda não faz parte do perfil do meu consumidor comprar uma roupa sem a busca de identidade’’, observa.
Trabalhando com peças praticamente exclusivas, Eduardo comercializa suas criações no ateliê em Recife, distribuindo também em lojas de artesanato e decoração. Atualmente, desenvolve alguns trabalhos de bordados para a NK Store, de São Paulo, onde mora há dois meses. E espera estabelecer outros pontos de venda mais convencionais. ‘‘É difícil porque escolhi um viés que leva para um consumo diferenciado. Até estabelecer uma política comercial adequada leva um tempinho. É um trabalho sem muita ansiedade’’, define.
Apesar de enxergar as coisas dessa forma, reconhece que o apoio dos grandes empresários seria de extrema importância para a divulgação de seu trabalho, já que ele próprio banca suas coleções. Mas, de certa forma, considera-se privilegiado por fazer parte desse momento efervescente pelo qual passa a moda brasileira e, assim, poder escolher veredas menos corriqueiras.

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