Estado nem tão interessante assim
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de outubro de 2005
Leandro Quintanilha 
A gravidez é a experiência transcendental de gerar um ser humano. Mas é também a experiência de gerar estrias, varizes, dores nas costas e muito, muito enjôo. É uma questão de perspectiva: depende de que lado da barriga você está. Para o observador, é invariavelmente um período mágico, um estado elevado de iluminação. Mas, para a dona da barriga...
A atriz Graziella Moretto (do filme Domésticas e da série de tevê Os Normais) ousou macular a imagem que tradicionalmente se tem de gravidez, falando francamente sobre a dela. O resultado é o livro Onde Vende o Manual? Coisas que eu não tinha entendido direito sobre Gravidez e maternidade (Panda Books, 140 págs.), concebido para derrubar o mito de que grávida não tem do que reclamar, só o que agradecer.
Sua (conturbada) gestação culminou no nascimento de Nina, hoje com 2 anos. É claro que Graziella não se arrepende; dedicou o livro a todos os primatas que nos antecederam, pelo excelente trabalho de sobrevivência, que permitiu à nossa espécie perdurar até o dia 14 de outubro de 2003, data em que pôde conhecer sua filha Nina. Mas a atriz fez questão de desmistificar esta etapa tão importante do processo reprodutivo, a gravidez.
Era preciso deixar claro: estado de iluminação que nada. A gravidez acontece e a vida continua a mesma trabalho, contas, trânsito. A mesma, em termos. Nos primeiros meses, os enjôos são aniquiladores, diz. E, se você reclama, as pessoas ficam indignadas, lembra. Graziella, que sempre se considerou natureba no quesito administração medicamentosa, passou meses à caça de um tarja preta contra náuseas. Recorri a vários livros e não encontrava mais que duas linhas sobre o tema, dizendo apenas que sentir enjôo durante a gravidez é normal.
Não basta. Para a atriz, cada mulher pode escrever a sua cartilha, mas toda grávida tem o direito de saber que não é a única a vomitar por 12 minutos seguidos ou engordar 28 quilos em poucos meses. E que tudo isso vai, sim, passar. O tal tarja preta para enjôos Graziella não encontrou, mas, escrevendo, descobriu o efeito anestésico do humor. Rir continua sendo o mais barato dos genéricos.
Trechos do livro
Antes de engravidar, a grávida que reclamasse perto de mim soava fútil e desespiritualizada. Hoje, eu sei que qualquer reclamação poderá ser usada contra você mesma quando se está disposta a contestar a síndrome de Nossa Senhora.
A tradição que diz que a mulher grávida é iluminada, devia estar se referindo ao óleo que escorre do couro cabeludo e recobre a testa de um brilho reflexivo.
Quando descobri que estava grávida, decidi contar apenas para a família e esperar três meses para espalhar a notícia. Já tinha presenciado casos de aborto natural, sabia que esse era um acidente que podia acontecer. Mas, como o início da minha gravidez foi bem pouco discreto, ou eu contava ou alguém ia acabar me levando para o AA.
Eu sentia que ou aquele bebê tinha unhas muito afiadas, ou estava armado lá dentro, decerto com algum instrumento cirúrgico remanescente de uma operação de hérnia que fiz aos três anos.


