A gravidez é a experiência transcendental de gerar um ser humano. Mas é também a experiência de gerar estrias, varizes, dores nas costas e muito, muito enjôo. É uma questão de perspectiva: depende de que lado da barriga você está. Para o observador, é invariavelmente um período mágico, um estado elevado de iluminação. Mas, para a dona da barriga...
  A atriz Graziella Moretto (do filme ‘‘Domésticas’’ e da série de tevê ‘‘Os Normais’’) ousou macular a imagem que tradicionalmente se tem de gravidez, falando francamente sobre a dela. O resultado é o livro ‘‘Onde Vende o Manual? – Coisas que eu não tinha entendido direito sobre Gravidez e maternidade’’ (Panda Books, 140 págs.), concebido para derrubar o mito de que grávida não tem do que reclamar, só o que agradecer.
  Sua (conturbada) gestação culminou no nascimento de Nina, hoje com 2 anos. É claro que Graziella não se arrepende; dedicou o livro ‘‘a todos os primatas que nos antecederam, pelo excelente trabalho de sobrevivência, que permitiu à nossa espécie perdurar até o dia 14 de outubro de 2003’’, data em que pôde ‘‘conhecer’’ sua filha Nina. Mas a atriz fez questão de desmistificar esta etapa tão importante do processo reprodutivo, a gravidez.
  Era preciso deixar claro: estado de iluminação que nada. ‘‘A gravidez acontece e a vida continua a mesma – trabalho, contas, trânsito.’’ A mesma, em termos. Nos primeiros meses, os enjôos são aniquiladores’’, diz. ‘‘E, se você reclama, as pessoas ficam indignadas’’, lembra. Graziella, que sempre se considerou natureba no quesito administração medicamentosa, passou meses à caça de um ‘tarja preta’ contra náuseas. ‘‘Recorri a vários livros e não encontrava mais que duas linhas sobre o tema, dizendo apenas que sentir enjôo durante a gravidez é normal.’’
  Não basta. Para a atriz, cada mulher pode escrever a sua cartilha, mas ‘‘toda grávida tem o direito de saber que não é a única a vomitar por 12 minutos seguidos ou engordar 28 quilos em poucos meses’’. E que tudo isso vai, sim, passar. O tal tarja preta para enjôos Graziella não encontrou, mas, escrevendo, descobriu o efeito anestésico do humor. ‘‘Rir continua sendo o mais barato dos genéricos.’’


Trechos do livro

  ‘‘Antes de engravidar, a grávida que reclamasse perto de mim soava fútil e desespiritualizada. Hoje, eu sei que qualquer reclamação poderá ser usada contra você mesma quando se está disposta a contestar a síndrome de Nossa Senhora.’’
  ‘‘A tradição que diz que a mulher grávida é iluminada, devia estar se referindo ao óleo que escorre do couro cabeludo e recobre a testa de um brilho reflexivo.’’
  ‘‘Quando descobri que estava grávida, decidi contar apenas para a família e esperar três meses para espalhar a notícia. Já tinha presenciado casos de aborto natural, sabia que esse era um acidente que podia acontecer. Mas, como o início da minha gravidez foi bem pouco discreto, ou eu contava ou alguém ia acabar me levando para o AA.’’
  ‘‘Eu sentia que ou aquele bebê tinha unhas muito afiadas, ou estava armado lá dentro, decerto com algum instrumento cirúrgico remanescente de uma operação de hérnia que fiz aos três anos.’’

mockup