Esse pai teve depressão pós-parto
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quinta-feira, 08 de agosto de 2002
Ana Setti<br> Reportagem Local 
Tudo aconteceu muito rápido e vários fatores, emocionais e práticos, combinaram-se para levá-lo a um estado depressivo. Mas tomar consciência de que tinha uma filha e de que isso representava uma nova e assustadora responsabilidade para o resto da vida, representou, sem dúvida, a gota d'água, capaz de deflagrar o processo de desarmonia psicológica que sofreu.
O dentista Luiz Cláudio Aguillera, formado em Londrina, estava tentando se firmar na carreira em Petrópolis, estado do Rio, para onde fora a convite de um amigo da faculdade. Lá, conheceu Angélica, que já tinha uma filha, Tamy, de 7 anos. Quando a namorada engravidou, Luiz Cláudio resolveu se casar e voltar para Londrina. ''De repente'', conta, ''eu, que sempre prezara tanto a minha liberdade, estava casado e prestes a ser pai.''
De natureza ansiosa e influenciável, Luiz Cláudio passou preocupado todo o período de gravidez da esposa. Preocupava-se com o estado físico de Angélica; com a possibilidade de o bebê nascer na estrada, antes que chegassem a Apucarana, onde o obstetra escolhido pelo casal atuava; e com a questão financeira, já que ainda lutava para formar clientela.
Quando, enfim, Camila nasceu, ele ficou ''esquisitão''. Acordava com enjôo, não se alimentava direito, não tinha vontade de ver ninguém, não tinha ânimo para nada, e preferia, sempre que possível, o isolamento. Curiosamente, conseguia ajudar com o bebê, já que à noite, quando Camila ficava enjoadinha e chorona, ele estava mais bem disposto. Dava banho na menina e andava com ela para lá e para cá, até que se acalmasse e dormisse.
As oscilações de humor e o emagrecimento visível continuaram por cerca de um ano, quando, então, tudo o que já parecia ruim piorou ainda mais, estimulando-o a procurar ajuda. ''Foi nas férias de fim de ano'', lembra Angélica, ''quando fomos para Petrópolis, passar o Natal com a minha família, e seguimos depois para Cabo Frio.'' Camila ficou muito doente, com coqueluche. ''Ela quase morreu'', comenta, emocionada, ''o médico considerou um milagre ela sobreviver, sofrendo o que sofreu com três meses de idade.'' Essa ''quase perda'', segundo acreditam, cooperou para abalá-lo ainda mais, forçando-o a ir até o fundo do poço, quando, então, se tornou possível iniciar o caminho de volta.
Foi uma das pacientes de Luiz Cláudio que deu o alerta. ''Você está muito acabado'', ela lhe falou, com franqueza, incentivando-o a procurar um médico. E ele foi, submetendo-se a uma bateria de exames, cujo resultado, para espanto de todos, nada revelou. ''O que mudou em sua vida?'', perguntou-lhe o clínico, acreditando em uma explicação psicológica para o problema. Depois de ouvir toda a história, não teve dúvida em diagnosticar: ''Você está com depressão pós-parto''.
Luiz Cláudio procurou, inicialmente, ajuda psicológica, mas não se sentiu motivado a tomar antidepressivos e a fazer análise. Decidiu-se, então, pela homeopatia, que o ajudou a se reequilibrar com rapidez e eficiência. Tanta, que ele se tornou fã ardoroso dessa prática médica e, atualmente, faz um curso de homeopatia em Curitiba, além de participar de um grupo de estudos sobre o assunto em Londrina.
Angélica nem sabe como conseguiu ser tão forte para enfrentar essa situação estressante, já que estava longe da família, adaptando-se a uma cidade nova e com um nenê e um marido depressivo para cuidar. Apesar de tudo, o relacionamento deles se manteve e fortaleceu-se com as lições aprendidas. Uma dessas lições, de acordo com Angélica, foi sobre a responsabilidade de manter um relacionamento. ''Deve-se pensar muito a respeito do que fazer, antes de agir'', comenta, ''deixando-se o egoísmo e o individualismo de lado, para que se possa efetivamente amadurecer.'' Outra lição, segundo Luiz Cláudio, ''é que a conversa é muito importante''. Ele é de uma família em que os homens até ouvem as mulheres, mas sempre fazem o que querem. Hoje, ''o diálogo reina em casa'', afiança. Decidem tudo juntos, a partir de muita conversa.
Três anos e meio depois de passar pela depressão, Luiz Cláudio enfrentou o teste definitivo, para saber se de fato estava curado. Nasceu Aline, hoje com 7 anos de idade. Tudo havia mudado: existia estabilidade financeira, uma clientela tinha sido formada e, principalmente, a gravidez havia sido planejada. O mais importante, no entanto, é que sua visão de mundo mudara, possibilitando que visse nas responsabilidades não um peso, para ir ao fundo, mas sim uma prazerosa motivação para ir mais longe e mais alto. n


