Há muito tempo que apresentar algum problema psiquiátrico deixou de ser apenas coisa de maluco. Estudos mostram que de 3% a 7% da população mundial sofre de transtornos emocionais. Enquanto o mais conhecido deles é a depressão, que afeta um número duas vezes maior de mulheres, o transtorno bipolar do humor (TBH) surge em ambos os sexos e, muitas vezes, é mal diagnosticado e tratado, causando danos para pacientes e familiares.
''O transtorno bipolar é a 6 causa de incapacitação para o trabalho, e cerca de 15% dos portadores que não recebem tratamento acabam se suicidando. Prevenir as crises e tratar o problema é uma questão de saúde pública'', garante o especialista Rafael Faria Sanches, de Ribeirão Preto, que abordou a doença em palestra no 1º Congresso de Saúde do Paraná, realizado semana passada em Londrina.
Geralmente confundido com a depressão, o transtorno bipolar já foi chamado de síndrome maníaco-depressiva e se caracteriza por crises de depressão e euforia intercaladas. ''Esses momentos não seguem uma ordem lógica. A pessoa pode ter várias fases depressivas e depois, uma eufórica, ou vice-versa. E também podem existir períodos de normalidade longos, de semanas até décadas sem problemas'', observa o psiquiatra Luiz Alberto Alves Nunes. Por todas essas características, alguns pacientes levam de oito a 13 anos para descobrir a doença.
Além da falta de regularidade nas crises, a aparente normalidade entre momentos de tristeza e alegria torna a percepção do transtorno bipolar difícil. ''Ficar alegre e triste é algo normal na vida. Passamos por momentos de sentimentos diferentes o tempo todo. Mas quem sofre de TBH está deprimido ou eufórico o tempo todo. Você conta para a pessoa que ela ganhou na loteria e, se ela estiver em crise depressiva, ela vai achar que alguém poderá roubá-la, que aquilo é algo ruim. A mesma coisa acontece com as crises eufóricas. Nada abala a alegria da pessoa'', explica.
E para quem acha que o transtorno bipolar tem seu lado bom com os momentos de alegria extrema, o médico diz que em geral isso tem um resultado desastroso. ''A pessoa se torna incoveniente, insiste para que todos a sua volta se divirtam também, sente muita necessidade de sair e gasta mais dinheiro do que tem com festas e coisas caras. Geralmente esses gastos e atos exagerados fazem o paciente entrar em uma crise depressiva logo que a euforia termina. Ele lembra de tudo o que fez e acaba se deprimindo'', afirma.
Risco de morte As crises são tão sérias que muitos doentes apresentam, além de apatia e tristeza típicas da depressão, sintomas físicos que podem causar a morte. ''Pesquisas mostraram que os pacientes de depressão ou transtorno bipolar em fase depressiva apresentam distúrbios do sono 80% não conseguem dormir e de apetite 70% não se alimentam corretamente. Órgãos como ouvido, estômago e intestino também costumam apresentar mau funcionamento sem estarem doentes. O sistema imunológico fica fraco e as doenças aparecem facilmente, podendo levar a pessoa à morte, sem falar do risco de suicídio'', alerta Nunes.
Assim como a depressão, o transtorno bipolar tem origem hereditária e acomete principalmente adolescentes e jovens adultos. ''Essas doenças são causadas por fatores físicos. O TBH acontece por causa de um problema nos neurotransmissores químicos do cérebro, que ficam muito acelerados na euforia e muito lentos na depressão. Existe um fator desecadeante, algo ruim ou algo bom que acontece com a pessoa, mas as crises se mantêm pelo mau funcionamento dos neurotransmissores'', explica.
Para tratar o problema, o especialista diz que o ideal é a combinação de medicamento e acompanhamento psicológico. ''Existem no mercado os antidepressivos e os neurolípticos, que tratam as crises de depressão e euforia, e existem os estabilizadores de humor, que ajudam a manter o equilíbrio e devem ser tomados como preventivos para novas crises. O problema é que as pessoas têm medo de tomar esse tipo de remédio e param o tratamento, voltando à doença. Elas acham que esses remédios viciam, o que não é verdade. Apenas medicamento de tarja preta pode viciar'', garante.
''Os efeitos colaterais da medicação são, no máximo, sonolência e ganho de peso, mas os laboratórios estão trabalhando para melhorar as fórmulas. Em alguns casos os estabilizadores não previnem as crises de depressão. Os novos remédios prometem resultados mais consistentes, com diminuição dos efeitos colaterais, mas por enquanto os estabilizadores ainda são a melhor opção e têm resultados muito bons na grande maioria dos casos'', afirma Sanches.
Se tratado de forma correta, o TBH apresenta resultados depois de três ou quatro semanas. ''Mas é bom lembrar que a depressão e o transtorno bipolar podem voltar. As crises geralmente se repetem e o cuidado deve ser constante'', alerta o médico.

mockup