Francelino França
As palavras estão grávidas de significados existenciais. A palavra dor extrapola o sentido de sofrimento físico. Nos coloca diante de nossa fragilidade e impotência em controlar tudo. ‘‘Multiplicarei os sofrimentos de teu parto, darás a luz com dores’’, registra o livro do Gênesis, nas sagradas escrituras. Isso não se aplicou à Rainha Vitória, soberana da Grã-Bretanha no período de 1837 a 1901, e mãe de 9 rebentos, incluindo o Rei Eduardo VII. Sua magestade foi uma das primeiras mulheres a parir com um tipo de analgesia. A farmacologia da época era precária e diferente daquilo que é aplicado hoje.
Tecnicamente, existe todo um controle sobre as dores agudas, como atesta o anestesiologista Paulo Herrera. O especialista está preparando dissertação de mestrado cuja temática central é a analgesia obstétrica. Este trabalho possui reflexos concretos no Hospital Evangélico, onde atua. Segundo informa o médico, 65% de todos os partos normais desse hospital são realizados sob analgesia.
Dor diminuída A analgesia dá alívio completo ou parcial às situações dolorosas. Caso fosse anestesiada, a paciente perderia o controle muscular. Por isso, a opção pela analgesia no parto natural. A parturiente sem acesso a esse recurso, mas que passou por uma preparação para o parto, terá um quadro de dor diminuído sensivelmente.
Técnicas de treinamento psicológico também contribuem para atenuar a dor. Mãe de primeira viagem atravessa um quadro doloroso mais agudo, em relação à mãe do segundo filho. A analgesia de parto mais utilizada hoje é a do tipo bloqueios regionais. ‘‘Esse tipo de analgesia permite que a mãe fique descansada quando precisa fazer força, no momento da expulsão da criança’’, observa Herrera.
Com a analgesia, a mãe não perde a força muscular, imprescindível para o trabalho de parto. ‘‘Com a mãe mais relaxada, o parto pode progredir mais rápido’’, avalia o médico. Segundo ele, algumas mães podem sentir um pouco de formigamento nas pernas, outras podem ter dor de cabeça. ‘‘É bom ressaltar que nem todas as pacientes vão precisar de analgesia’’, prossegue. Isso porque, cada pessoa reage de forma diferente à dor, conforme o estímulo doloroso que recebe.
Tendência Nesse campo, Paulo Herrera verifica que a tendência no Brasil é aumentar o percentual de partos com analgesia, a exemplo do que acontece na Alemanha (80% dos partos são analgesiados) e Estados Unidos (70%). O anestesiologista observa que muitas pacientes em trabalho de parto não suportam mais a intensidade da dor, e o obstetra acaba optando pela cesárea, sem se beneficiar da analgesia. Esse é um comportamento comum nas parturientes que possuem convênio ou tem atendimento particular. Elas optam pela cesárea, muitas vezes desconhecendo que poderiam se valer da analgesia no parto natural.
Estudos da área apontam que a dor lancinante do parto está na mesma intensidade da amputação de um dedo. Isso quando não existe nenhuma preparação para o parto. Mas existe um componente afetivo transcendente no parto, como lembra Paulo Herrera. Isso faz com que imediatamente após o nascimento do bebê, a mãe esqueça a dor; afinal, dar a luz tem um fim agradável. (F.F.)
Agradecimento: Livraria Bom Livro

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