Em busca do prazer
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 08 de junho de 2000
Cleide Calvacante Agência Estado 
No final do século 20, a mulher comemora conquistas significativas nos mais diferentes segmentos. Inclui-se aí a evolução sexual feminina. Hoje, as mulheres, que no passado eram cercadas de todas as formas quando o assunto era sexo, superaram praticamente todas as barreiras e estão muitos mais preocupadas com a conquista plena do prazer. Deve-se considerar, porém, algumas culturas ainda castradoras.
Um exemplo disso são as mulheres do Afeganistão. Elas têm de se submeter a uma série de regras que excluem a mulher de qualquer atividade de destaque social. Como se não bastasse, não podem deixar à mostra qualquer parte do corpo, a única exceção é feita para as mãos, o resto do corpo, da cabeça aos pés, deve permanecer totalmente coberto por um manto.
Pior é a situação para as mulheres que vivem em países africanos sob o domínio do Islã. Ainda são muito comuns rituais de extinção do clitóris a sangue frio. Para esses povos, o prazer feminino durante o ato sexual é inconcebível. De algumas décadas para cá, alguma coisa tem mudado, mas para elas o caminho a ser percorrido ainda é longo. Dessa forma, fica muito difícil falar em comportamento sexual feminino para povos que sequer reconhecem os direitos primários das mulheres.
No Ocidente, o panorama é diferente. As mulheres até podem enfrentar algumas barreiras sociais, como o fato de terem, em sua maioria, salários mais baixos do que os homens. Entretanto, quando o assunto é sexo, o debate é até saudável. A mulher já tem conquistado o seu espaço. E hoje mais do que proporcionar prazer ao parceiro, a mulher quer ter como certa numa relação a garantia do próprio prazer. Já vai longe o tempo em que elas ficavam mergulhadas em uma relação de aparências, sem qualquer satisfação. Pode até acontecer, mas por outros motivos. O que pode explicar o número crescente de adultérios cometidos por mulheres nas últimas décadas.
Liberdade de expressão Em Mulheres que Gostam de Sexo (Editora Record), a sexóloga Gina Ogden diz que as mulheres sempre gostaram de sexo, mesmo que isso possa ter gerado algum sofrimento, abuso, privação ou até a morte. Para muitas mulheres do mundo, durante a maior parte da história registrada, o gosto pelo sexo tem sido acompanhado por algum tipo de sombra: controle, coisificação, abuso, abandono. Com muita frequência, as mulheres têm que pagar por seus prazeres sexuais com a vergonha e o ostracismo, a gravidez indesejada e a doença, comenta a sexóloga.
As mulheres atualmente, explica a socióloga Márcia Douglas, podem estar ao mesmo tempo mais pessimistas e mais otimistas com relação ao sexo do que as gerações anteriores. O medo da Aids e da violência sexual obrigaram algumas a gravitar para um extremo de sexo perigoso e autodestrutivo, sexo não seguro, ou a adotar sentimentos e comportamento anti-sexuais, diz Márcia Douglas, autora do livro Eu Também Quero, da Editora Objetiva. Enquanto isso, muitas outras mulheres ignoram o desequilíbrio na balança do prazer e acreditam que agora gozam de uma liberdade de expressão sexual que é igual a dos homens.
Segundo ela, é através da recriação do sexo a partir da ótica feminina, que a mulher poderá combater a violência sexual e transformar em padrões práticas sexuais mais seguras, ao mesmo tempo assegurando seu orgasmo e enriquecendo a experiência do sexo de maneira geral.


