Em busca da brincadeira perdida
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quinta-feira, 22 de março de 2007
Angela Raizer Barbosa<br> Enviada a São Paulo 
Desde que o mundo é mundo, as crianças brincam. Nas últimas décadas, cada vez menos, sem dúvida. Não se sabe exatamente em que momento as ruas e os quintais deixaram de ser palco para jogos da amarelinha, esconde-esconde, peteca, bola de gude, cabo de guerra, entre outros. Mas, com certeza, uma série de fatores, como excesso de carros nas ruas, verticalização, falta de segurança, os pais trabalhando, televisão, videogame, internet são fatores que contribuíram para os números alarmantes de um dos estudos mais completos feitos até agora no Brasil. A pesquisa, realizada pela Ipsos Public Affairs com o patrocínio da Unilever, ouviu pais e crianças, de 6 a 12 anos, em 77 cidades de todas as regiões brasileiras, o que representa um universo de 31,5 milhões de pais e 24,3 milhões de filhos.
O resultado do trabalho e algumas sugestões para mudar esse cenário foram apresentados no mês passado, em São Paulo, durante o 3º Fórum de Desenvolvimento da Criança: A Descoberta do Brincar, com a presença da psicóloga canadense Ann Marie Guilmette, da Brock University; Maria Ângela Barbato Carneiro, da PUC-SP e consultora da pesquisa; Marilena Flores Martins, presidente da Associação Brasileira pelo Direito de Brincar (IPA); e Paulo Cidade, da Ipsos.
Falta de tempo Avaliado pelos especialistas, o levantamento é um balde de água fria para os pais, os maiores vilões da história: enquanto 53% revelam que brincam com os filhos, 47% simplesmente não brincam, 19% consideram a brincadeira uma prioridade para as crianças e apenas 14% têm prazer em brincar com os filhos.
Mas afinal, o que é brincar neste século inflado de novidades cibernéticas, sob o domínio da pressa e da falta de tempo para uma coisa tão prosaica quanto divertir-se infantilmente? Para a psicóloga Ann Marie Guilmette, brincar nada mais é do que entreter-se livre das limitações de tempo e espaço, com alguma fantasia e sem resultados certos. ''Algumas brincadeiras têm regras - quando começa, quando termina, quem vai ser o pai, a mãe, o bebê, mas são regras flexíveis e as crianças sabem disso. Já os esportes são brincadeiras formais, com regras específicas'', explica.
Se nós sabemos o que é brincar, porque não brincamos ou deixamos brincar? Para Ann Marie isso acontece porque a brincadeira é considerada imatura, negativa, inverte a ordem social. A brincadeira é barulhenta, interrompe, e nós queremos a ordem, não o caos. ''No entanto, brincar é muito bom. O tempo voa, ficamos todos iguais, fortalecemos vínculos, aumentamos nossa capacidade de resistência ao estresse, podemos errar, ter alternativas, e os benefícios para o desenvolvimento infantil são comprovadamente eficazes'', argumenta.
Enfática, Ann Marie acredita que ''se fecharmos as escolas e criarmos playgrounds as crianças se desenvolverão, mas se acabarmos com as brincadeiras nas escolas não teremos futuro''.,
Excessos - De acordo com a pesquisa, a ''brincadeira'' favorita das crianças é assistir à tevê, com 97% de incidência, o que reforça outro índice que aponta as crianças brasileiras como as que mais vêem televisão no mundo, três horas e meia por dia, em média, sem contar videogame e computador. ''Se você ignorar esses equipamentos, principalmente a internet, vai transformar seu filho num analfabeto virtual, só que é preciso fazer a dosagem adequada disso tudo'', alerta Marilena Martins.
Outro fator que contribui para rarear a diversão infantil é o excesso de atividades extracurriculares programadas desde cedo pelos pais, tendo em vista o futuro bem-sucedido dos filhos - na pesquisa, 98% deles concordam com esse item e 84% revelam que para isso os filhos devem brincar menos e estudar mais.
E é justamente na escola que as crianças mais brincam fora de casa - 46% delas, de acordo com a pesquisa. Isso requer profissionais mais preparados, atualizados sobre o tema porque, na escola, as atividades geralmente são planejadas e monitoradas, inibindo a criatividade. ''Brincar é um problema na formação de professores; é preciso remover o preconceito contra as atividades lúdicas e criar cursos de formação específica nessa área. Precisamos resgatar repertórios, ensinar outros, estimular o acervo de matérias, criar espaços lúdicos'', argumenta Maria Ângela.
Para Ann Marie, a pesquisa da Ipsos, notável em dados quantitativos e qualitativos, é um estudo sem precedentes no mundo. ''É um chamado para pais e educadores brincarem e deixarem as crianças brincar. E nem é preciso elaborar planos para se divertir com os filhos, a brincadeira tem muito mais a ver com o coração do que com a cabeça, é emoção'', completa.
Já Maria Maria Ângela Barbato Carneiro, autora do livro ''Brinquedos e Brincadeiras: formando ludoeducadores'' (Editora Articulação/Universidade-Escola da Puc-SP), recomenda aos pais que tirem os filhos da frente da tevê, nem que seja por 15 minutos, procurando motivá-los com brinquedos, ir para o playground, ruas, praças.
Paradigmas- ''Brincar é perda de tempo'', ''A mente ociosa é a mãe de todos os vícios''. Nestes pensamentos de domínio popular repetidos há gerações como a expressão ideal de comportamento, Marilena Martins resume os pré-conceitos que estão culturalmente arraigados na sociedade. ''São paradigmas que precisam ser quebrados porque ''Brincar é o trabalho da criança. ''Brincar faz a gente feliz'', acrescenta presidente do IPA, que há 20 anos defende esse direito da criança. Por isso, ela recomenda que as brincadeiras ocupem lugar de destaque em casa e na escola. ''Brincando, a criança aprende. Ela não apenas se diverte, mas recria e interpreta o mundo em que vive''.
A jornalista Angela Raizer Barbosa viajou a convite da organização do evento
A Descoberta do brincar
Outros números
56% dos pais consideram prioridade a qualidade de ensino na escola
32% querem mais atividades complementares à escola, como informática e idiomas
29% querem que as crianças passem mais tempo na escola
26% querem mais áreas de lazer voltadas para as crianças
56% das crianças brincam no quintal da casa
49% brincam no quarto
46% brincam na escola
40% brincam na rua
33% brincam na sala da casa
71% brincam com amigos do bairro/rua
69% brincam com amigos da escola
98% dos pais concordam que devem preparar as crianças para serem adultos bem-sucedidos profissionalmente
93% dos pais concordam que as crianças que brincam se tornam adultos mais felizes


