"Seu desenho está perfeito. Você é um artista"! "Parabéns, filha. Você tirou uma nota boa porque é a menina mais inteligente da turma". "Quem é a criança mais linda e esperta do mundo?!". Frases com superlativos e elogios exagerados fazem parte do vocabulário de qualquer pai ou mãe orgulhoso de sua cria. A psicopedagoga, mestre em Psicologia da Educação e presidente da Associação Brasileira de Psicologia (ABP), Quézia Bombonatto, pondera, no entanto, que quando o elogio não é sincero ou reforça somente qualidades e características pessoais, pode atrapalhar o desenvolvimento e a autoconfiança da criança.

Para ilustrar essa questão, a especialista contou que um teste foi realizado nos Estados Unidos com crianças em idade escolar que deveriam fazer um teste simples de quebra-cabeça. Quando terminou com sucesso o desafio, metade delas foi elogiada como sendo inteligente, e a outra metade foi elogiada pelo esforço que aplicou em resolver o problema. Na segunda etapa do teste os alunos poderiam escolher entre um desafio semelhante ao que tinham acabado de fazer ou outro, mais difícil. A maioria dos alunos que foi elogiado como "inteligente" escolheu uma tarefa igual, e a maioria da turma dos "esforçados" escolheu o desafio diferente.

Segundo Quézia, isso acontece porque a criança tem desejo de corresponder às expectativas dos adultos, e quando ela acha que pode falhar, ela fica insegura. Já o esforçado sabe que o que vale é tentar, e não conseguir efetivamente atingir o objetivo. "A criança tem medo do insucesso, e começa a pensar que aquele elogio do 'inteligente' pode não ser verdade. Ela pensa: 'se eu errar vou decepcionar'. Então a criança que é elogiada pelo esforço se sente motivada a tentar, e o outro não", explica.

Elogios são, portanto, grandes fontes de estímulos e são essenciais para desenvolver a autoestima infantil, mas devem ser feitos da forma correta. "Os pais devem elogiar e valorizar sempre as ações da criança, e não qualidades pessoais. Se a criança é bonita, talentosa ou inteligente, o importante é elogiar as ações dela naquele momento, e não rotular e falar que ele é isso ou aquilo", frisa. Dessa forma, segundo ela, se a criança não for bem em uma atividade, ela sabe que pode melhorar, e não fica com medo de não ser uma pessoa inteligente, por exemplo, só porque falhou naquela vez. "Mas não deixe de elogiar seu filho. É só ter em mente que o elogio positivo é produtivo, feito em cima da ação. E o negativo é avaliativo, feito em cima da personalidade, caráter e características pessoais."

No caso de pais que lidam com mais de uma criança, ou professores, que lidam com o coletivo, ela explica que é importante chamar atenção para o que é correto, e não para o erro. "Tenho dois filhos e passei essa experiência na pele. Quando os dois eram pequenos e estavam fazendo a lição, minha filha fazia com capricho, e meu filho, mais velho, estava fazendo um garrancho, para acabar rápido. Ao invés de elogiar a tarefa dela, que estava bonita, eu chamei atenção para ele, falando que ele teria que refazer. Quando comecei a falar com ele, ela percebeu e começou a rabiscar a tarefa dela também", conta.

Nessas situações, ela afirma que é importante chamar atenção para a produção assertiva, para "convidar" e trazer o desejo no outro de fazer certo também. "Se eu tivesse elogiado o esforço dela, provavelmente ele teria o desejo de fazer correto e também ser elogiado. Como fiz o contrário, ela percebeu que ele estava chamando mais atenção, então quis atenção também. Os filhos precisam de elogios, e é importante reforçar esses comportamentos corretos para que eles cresçam confiantes e com autoestima", conclui.

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