Eles não creem nessa ideia
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 31 de maio de 2007
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Houve um tempo em que 'saudade' tinha trema, 'farmácia' se escrevia com ph, 'fato' levava um c mudo e a letra y estava presente em várias palavras portuguesas. Mas a língua foi se modificando e isso tudo se tornou coisa do passado, pelo menos no Brasil. É que algumas das alterações, como o cê mudo, foram feitas apenas em terras tupiniquins e não seguidas pelos lusitanos e outros países.
Com isso, o que se vê hoje é uma profusão de regras e palavras diferentes em cada país de língua portuguesa (são oito no total - Brasil, Portugal, São Tomé e Príncipe, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e Timor Leste). ''Cada país fala um português diferente porque tem suas influências, seu tempero, sua maneira de pronunciar'', diz a professora de português e diretora geral do Colégio Ateneu, Júnia de Barros Schlumberger.
Para tentar unificar a língua entre todos os países, desde 1990 está tramitando um documento sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que pretende retirar da língua escrita o trema, os acentos circunflexos da letra o dobrada (como em vôo), dos verbos de terceira pessoa plural (lêem), e as letras cê e pê mudas nas palavras onde elas não são pronunciadas. Alguns acentos diferenciais também deixarão de existir como em pára, além da eliminação do acento agudo nos ditongos abertos ei e oi, como nas palavras assembléia e jibóia. Por fim, o português passará a adotar as letras k, w e y.
Para os defensores da idéia, a unificação da ortografia melhora a definição de critérios para exames e certificados para estrangeiros e facilita a divulgação e a prática do idioma em eventos internacionais. Com as mudanças, a frase ''a frequencia com que eles leem no voo é heroica'' estará perfeita para qualquer país que fale português.
Mas para os profissionais da língua, dificilmente as mudanças serão aceitas. Até agora, apenas Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe assinaram o acordo. ''Não acredito que Portugal, que é o país dono da língua, irá aceitar as modificações. Mesmo a reforma de 1942, que tirava algumas letras mudas e acentos, não entrou em vigor em Portugal. Por lá, eles continuam escrevendo acto ou invés de ato. É uma tradição que não me parece que eles queiram mudar'', garante o professor de literatura portuguesa e criador do disque-gramática, Joaquim Carvalho da Silva.
Segundo a professora de português do Colégio Marista, Rita de Cássia Paulino, o projeto, além de ser desnecessário, pode atrapalhar a vida de quem estuda a língua. ''Acho que existem outras coisas na língua que poderiam ser revistas mas não os símbolos fonéticos, como o trema e acentos. A falta deles vai dificultar a compreensão por causa da falta das regras para a leitura. Sem os acentos diferenciais, o sentido das palavras vai ficar por conta do contexto e isso demanda mais atenção na hora da leitura'', explica.
A diretora educacional do Marista, Marize Rufino, lembra como as alterações feitas em 1971 já comprometeram a compreensão de textos. ''A retirada do acento da palavra fôrma, que a diferenciava de forma, é um exemplo claro. Dependendo da frase, fica difícil entender qual a mensagem que o autor quis passar'', garante.
Outro bom motivo para a reforma não acontecer, segundo a diretora do Ateneu, Júnia Schlumberger, é o gasto financeiro que editoras e governo terão para adequar os livros às novas regras. ''Acredito que as empresas irão fazer uma pressão para evitar a mudança, que irá representar um custo muito alto para alterar todos os livros e dicionários do País'', lembra.
Para os que acreditam que a derrubada dos acentos pode popularizar a língua, ela comenta que esse não é o caminho mais correto. ''Se é para acompanhar o que o povo fala, devemos aceitar o uso de 'para mim fazer' ou 'menas', que é como a maioria das pessoas fala. Não acho as mudanças propostas importantes para o povo em geral'', afirma.
O professor universitário Joaquim da Silva é ainda mais radical em relação às mudanças. ''Para mim é um retrocesso. Antes escrevíamos com y, daí retiramos para facilitar a escrita e agora querem colocá-lo outra vez. O português é uma língua difícil porque é muito rica e essa riqueza abre espaço para a expressão artística. Não concordo em termos algo parecido com o inglês, que não tem acentos, regras. É uma língua técnica e pobre na minha opinião'', comenta.
Para os estudantes, Júnia lembra que todas as regras antigas continuam valendo e devem ser aplicadas nas redações e provas de vestibular. ''Mesmo o trema, que muita gente nem usa mais, continua necessário. Explico para os alunos que nada mudou ainda.''


