Eles estão grávidos
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 05 de agosto de 2004
Rosângela Vale<br>Reportagem Local 
Eles não sentem enjôos, não ficam inchados e não precisam adaptar o guarda-roupa às novas formas do corpo. Não são acometidos pela vontade súbita de comer coisas estranhas e, ainda que sejam vítimas do fenômeno, não sofrem com a enxurrada de hormônios que deixam os sentimentos femininos à flor da pele. Mas, desde que recebem a notícia de que um filho está chegando, a vida deles não é mais a mesma. Da emoção pela continuidade de si no mundo, à preocupação em garantir o sustento e o bem-estar do rebento, as mudanças na forma de encarar a própria existência são tão nítidas quanto as evidências físicas da gravidez.
Para o protético Antônio de Hércules Filho, 24 anos, ''a ficha caiu'' durante o ultra-som que mostrou o sexo do bebê. Certo de que seria uma menina todos diziam isso , recebeu, extasiado, a notícia de que se tratava de um menino. ''Ficamos sabendo às 6h30 da tarde e ele só parou de chorar às 10h30 da noite'', lembra a esposa dele, a farmacêutica Michele, 27 anos, no sétimo mês de gestação de Pedro. ''Desde que o conheço, nunca o vi tão animado com uma notícia'', observa ela.
O excelente relacionamento com o pai e o desejo tradicionalmente masculino de ter um varão explica a reação de Antônio, que já sonha em reunir as três gerações da família em viagens restritas ao ''clube do bolinha''. Pedro parece aprovar a idéia. ''Ele mexe toda a vez que falo o nome do vovô'', conta o papai ''babão''.
Com Michele, os cuidados são pra lá de especiais. ''Evito dizer coisas chatas para não deixá-la preocupada e não alterar o seu estado emocional'', comenta. Mesmo sendo um ''espectador'' tão presente, ele, às vezes, não se sente confortável no papel. ''Fico tentando imaginar o que se passa na cabeça de Michele quando ela está quieta, com a mão na barriga'', conta Antônio, que conversa todos os dias com o filho e mal pode esperar o momento de abraçá-lo. ''Não vejo a hora de deitá-lo no meu peito'', planeja.
Estímulo O empresário Patrick Alcântara Plastina, 30 anos, vai esperar um pouco menos para fazer isso: Patrick Filho chega no final deste mês. A experiência de estar ''grávido'' tem sido extremamente positiva. ''Se soubesse que ia ser tão bom, teríamos encomendado antes. É bacana sentir esse bichinho mexendo e saber que fui eu quem fiz!'', diz. A mulher, Ângela, lista as mudanças no comportamento do marido: ''Ele vive na expectativa com o próximo ultra-som, controla meu peso, chega mais cedo do futebol, traz café para mim na cama e está todo cuidadoso'', conta. Na decoração do quarto do bebê, Patrick também deu palpite: comprou um tapete em forma de campo de futebol.
O empresário não se considera ''babão'' nem distante, mas reconhece que a idéia de que o filho vai chegar é um estímulo e tanto no seu dia-a-dia. ''Na hora em que estou meio cansado, penso: tá vindo um neném aí, tenho que me preparar''. Sobre a forma de educá-lo, Patrick diz que pretende ser menos exigente, ''cobrar menos, deixá-lo quebrar um pouco a cabeça e aprender com os erros''. Medo nenhum o aflige, por enquanto, a não ser o de não saber trocar fraldas...
Alegria e medo A proximidade dos irmãos Luis Miguita Júnior, 32 anos e Marco César Miguita, 31, ambos médicos cardiologistas, vai se repetir com os seus descendentes. Pelo menos na (pequena) diferença de idade dos primos. Ambos souberam que seriam pais num intervalo de apenas dois meses e meio. Marco recebeu a notícia durante o expediente. ''Eu estava no hospital, no meio de um exame complicado, quando a Carol me ligou pedindo para eu sair'', conta. Ele lembra que depois de ver o exame positivo, ficou tão ''passado'' que entrou na sala de exames sem o avental de chumbo. ''A primeira coisa que fiz foi ligar para o meu pai'', relata. Sua esposa, a arquiteta Ana Carolina Junqueira, 28 anos, está na oitava semana de gravidez
Júnior se lembra do momento em que viu o resultado do teste de gravidez da mulher, a servidora pública Cláudia, 31 anos, como um dos mais emocionantes que já viveu. ''Passou muita coisa na cabeça. Vai mudar tudo, não vai ter mais ''eu'', as coisas vão girar em torno dele. Mas cada época da vida tem as suas prioridades'', diz, referindo-se ao pequeno Leonardo. Cláudia está no quarto mês de gestação.
Para Júnior, os sentimentos se misturam: alegria e medo estão sempre presentes. ''O médico vê as coisas de um jeito diferente; fico pensando em tanta coisa que pode dar errado...'', revela, já mais tranquilo depois dos últimos exames. Mas, no primeiro ultra-som, o nervosismo era tanto que ele nem entrou na sala. Detalhe: fazer ultra-som (do coração) é o seu ofício. ''Não quis pressionar a doutora'', justifica.
Os dois irmãos acreditam que este é o momento certo para aumentar a família, tanto pela estabilidade profissional como pela idade. ''A gente começa a fazer as contas, a pensar em quantos anos vai ter quando o filho entrar na faculdade. Ainda vou precisar estar produzindo bastante nessa época'', analisa Marco. ''Como médicos, sabemos que, para a mulher, quanto mais o tempo passa, fica mais complicado ter filhos'', argumenta Júnior.
Quando pensam no importante papel que terão pela frente o de ser a principal referência de conduta a ser seguida por outro ser humano Marco e Júnior se sentem tranquilos. A ''fórmula'' para ser um pai bem-sucedido, garantem eles, foi devidamente aprendida em casa. n


