Ele ouve, mas não entende
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quinta-feira, 02 de setembro de 2004
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Desde a pré-escola, Jayme Linhari Tróya Júnior, 10 anos, tinha dificuldades para acompanhar o conteúdo passado pelo professor. Por mais que se esforçasse, ele não conseguia se concentrar na aula e era sempre o último da sala nas tarefas. Praticar esportes também era uma atividade penosa. ''Os meus colegas iam para um lado, daí corriam para outro e eu não entendia o porquê. Teve uma vez que um menino me chamou de burro e nós até brigamos'', conta.
Percebendo o problema do filho, a mãe, Lenice Arbonelli Mendes Tróya, resolveu procurar especialistas. Foram anos de peregrinação por oftalmologistas, psicólogos, neurologistas, otorrinolaringologistas, além de terapias alternativas sem sucesso algum. ''Os médicos indicavam problemas que não existiam. Teve uma vez que ele foi diagnosticado como hiperativo e começou a tomar remédios. Mas ele ficou pior ainda, com sono o dia inteiro'', lembra. A solução só veio há cerca de um ano, quando a orientadora da escola em que Jayme estuda recebeu um folder de uma clínica de fonoaudiologia que falava sobre um distúrbio com as características apresentadas pelo menino.
Novidade Semanas depois, a família descobriu que o problema tinha diagnóstico, cura e o nome de Desordem do Processamento Auditivo Central (DPAC). Isso mesmo, tudo acontecia por um problema de audição. De acordo com a fonoaudióloga Márcia Bongiovanni, casos de DPAC que não são diagnosticados são comuns. ''Como o problema foi descoberto há pouco tempo, a maioria das pessoas, inclusive médicos, desconhece sua existência'', afirma. Mas a questão é mais séria do que se imagina. Um estudo feito pela Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo, descobriu que cerca de 70% dos alunos da rede pública e 30% da rede particular de ensino apresentam o distúrbio em algum grau.
A diferença é grande porque, de acordo com os médicos, a má nutrição é uma das responsáveis pelo surgimento da doença, além da questão genética, da falta de estímulos sensoriais e, principalmente, das infecções de ouvido ocorridas na infância. ''Tudo isso atrapalha o desenvolvimento do sistema auditivo, que se forma até a idade de 13 anos'', diz Márcia. Outra característica que dificulta a identificação da DPAC é que ela é um problema funcional, e não orgânico. ''A pessoa escuta normalmente, mas tem dificuldade para compreender o que é falado. A confusão acontece no cérebro e não no ouvido'', explica a especialista.
Sintomas Como consequência, a pessoa apresenta dificuldades em manter a atenção, compreender uma mensagem, distinguir e se concentrar em uma única fonte de som, memorizar recados e textos, pronunciar determinados sons e diferenciar letras do alfabeto. ''O Jayme era uma criança desatenta, falava baixo, tinha a auto-estima muita abalada e estava sempre isolado, tanto em casa como na escola'', conta Lenice.
A psicóloga Mercês Maria Tomaél diz que a relação com os outros, juntamente com as dificuldades escolares, são os problemas mais comuns enfrentados por quem tem DPAC, principalmente as crianças. ''A pessoa é considerada preguiçosa, lenta e até burra pelos demais e isso causa muita frustração. Algumas crianças, mesmo depois de passar pelo tratamento e superar a desordem, não acreditam que são capazes de fazer o que os outros fazem, como jogar futebol, por exemplo. É aí que entra o trabalho do psicólogo'', comenta.
Na maioria dos casos, dois ou mais profissionais, de áreas diferentes, são necessários para devolver à criança a capacidade de se relacionar normalmente com o barulhento mundo externo. ''Alguns pacientes apresentam junto com a DPAC o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Nesses casos, a psicoterapia e a medicação com estimulantes é necessária'', diz o neuropediatra Efigênio Silvio de Castro Júnior. O tratamento pode durar de seis meses a um ano e meio, em média, para pacientes que não apresentam complicações mais sérias, e livrar a criança, ou adulto, de vez das piadas e preconceitos que sofre um portador de DPAC.
''Quem tem DPAC só precisa treinar o sistema auditivo central para ouvir direito e suprir as perdas ocorridas durante o período em que a audição não se desenvolveu como deveria. O tratamento é gostoso de fazer e elimina completamente o problema, sem a necessidade de manutenção'', garante a fonoterapeuta Andrea Oliveira Batista.
Depois de passar alguns anos com o problema, Jayme está quase liberado da terapia, que durou pouco mais de um ano. Morador da cidade de Cornélio Procópio, o menino vem a Londrina com os pais duas vezes por semana para se tratar. ''Mas a gente pega a estrada feliz da vida. Hoje ele está inserido no meio dele. Vai bem na escola, participa do time de futebol e tem muitos amigos. Os pais precisam entender que uma criança não é preguiçosa nem distraída o tempo todo. Se isso acontecer, alguma coisa está errada. Nós demoramos anos até descobrir o que o Jayme tinha, mas quando ele chegou em casa com os amigos de escola para fazer um churrasco, vimos que o problema estava sendo resolvido'', lembra Lenice.n


