Elas valem por dois
Batalhadoras, as mães que criam os filhos sozinhas tiram de letra a sobrecarga de responsabilidades

Jossânia Navolar

Fotos: Milton Dória
‘‘Quando preciso da figura masculina na vida de meus filhos, peço ajuda a um dos meus irmãos’’, revela Kilda GimenezEm função do divórcio, o aumento de núcleos familiares, em que os filhos têm somente a presença da figura materna, tem se tornado comum. Nestes casos, a mulher acaba tomando para si também o papel de pai. Profissionais batalhadoras, elas não ligam em sustentar suas casas sozinhas, nem reclamam da correria a que estão sujeitas. Apesar da sobrecarga de responsabilidades, a alegria é imensa quando olham em volta e percebem que os esforços sempre valem a pena. Invariavelmente, o saldo dessa relação é de muita cumplicidade.
‘‘Não acredito que existam muitas diferenças entre meus esforços e os de qualquer outra mãe que trabalhe e estude. Creio que, com ou sem marido, o corre-corre do dia-a-dia é o mesmo. Talvez, o que acontece quando se tem o pai de seu filho ao lado, seja dividir pequenas tarefas como levá-lo ao médico ou à escola’’, confessa a bancária Clara Yumi Yasunaka, 40 anos, mãe de Marcela, 12 anos, e Eric, 6 anos.
No entanto, para dividir essas pequenas tarefas, Yumi conta com o apoio da família. É seu pai que a ajuda nos consertos domésticos, como trocar um chuveiro ou fazer pequenos reparos. ‘‘Sinceramente, é só nesses momentos que sinto falta de um companheiro para me ajudar. No mais, não chego a me sentir sozinha. As crianças, por sua vez, colaboram reconhecendo meus esforços e mantendo uma relação de cumplicidade comigo’’, revela Yumi.
Para Clara Yumi Yasunaka não existe muita diferença entre seus esforços e o de qualquer outra mãe que trabalhe e estude
Modelo masculino A bancária Andréa Suely Germanovix, 29 anos, mãe de Cassiano, 9 anos, e João Gabriel, 3 anos, sente que cuidar dos filhos sozinha não é tarefa fácil. Apesar da ajuda que tem dos pais dela, diz sentir necessidade de priorizar determinadas coisas em detrimento de outras, para que os filhos possam vir sempre em primeiro lugar. E isso, às vezes, é complicado, exige muito jogo de cintura. ‘‘Como trabalho e estudo, todo tempo que tenho livre é dedicado a eles. Durante a semana é tudo muito corrido, preciso usar de muita criatividade para mantê-los ocupados e poder fazer minhas coisas, mas nos finais de semana compenso. Programo pescas, passeios e até acampamentos’’, conta Andréa.
Separada há sete anos do primeiro casamento e há dois anos do segundo (uma relação que não foi oficializada), Andréa teve um filho de cada relacionamento e os assumiu praticamente sozinha: afetiva e financeiramente. ‘‘A ajuda emocional de um companheiro faz falta. Acredito que o correto é mãe, pai e filhos juntos. Muitas vezes, quando tenho que fazer alguma coisa, preciso levar os dois comigo. Isso exige criatividade em último grau. Mas a relação de companheirismo com os filhos acaba sendo imensa’’, revela.

Andréa Germanovix reconhece que a tarefa de cuidar dos filhos sozinha nem sempre é fácil - exige uma dose extra de criatividadeAndréa diz que algumas vezes pensa nos pais das crianças e imagina que eles não devem ser homens muito felizes. ‘‘Acho que, em algum momento da vida deles, essa ausência que eles produzem nos filhos vai fazer falta em suas próprias vidas’’.
Como mora com os pais e uma irmã, os filhos acabaram se acostumando, por pura imitação, a chamar o pai dela de pai, mesmo sabendo que não é verdade. No entanto, a relação entre eles tranquiliza Andréa. ‘‘O avô é o modelo masculino de que precisam. E as crianças adoram a companhia dele. Quando meu pai vai fazer algum conserto na casa, por exemplo, ele distribui as ferramentas e os dois o seguem’’.
Decidir sozinha Separada há três anos, a empresária Kilda Maria Prado Gimenez, mãe de Anna Gloria, 15 anos, Cecília, 12, e Franco, 11, acredita que os filhos receberam bem a separação. ‘‘Expliquei que acabou o amor que havia entre nós, mas que continuávamos amigos. Usei, para o mais pequeno, a experiência dele próprio sobre a questão do deixar de gostar de alguém’’, conta.
Por precaução, Kilda pediu ajuda a um terapeuta para verificar se a separação havia causado algum dano nas crianças. O diagnóstico foi que elas receberam bem a idéia, apesar de o pai, italiano de nascimento, ter voltado para sua terra. O que de certa forma dificulta o contato com as crianças. ‘‘Eles se telefonam e trocam cartas constantemente. Principalmente nas datas importantes como aniversário, Natal e Páscoa’’, revela Kilda.
Nas questões práticas, Kilda acredita que nada mudou, a vida continua a mesma. Para ela, o que mais pesa, pelo fato de não ter um companheiro ao lado, é dividir responsabilidades no que diz respeito aos filhos.‘‘Se a mais velha pede para ir uma festa e voltar às quatro horas da manhã, por exemplo, a decisão é só minha. Não tenho com quem dividir, trocar idéias. E isso pesa. Às vezes, me sinto estressada por tomar decisões sozinha o tempo todo’’, diz.
Fora isso, Kilda acredita que tira tudo de letra. Quando necessita de uma figura masculina, principalmente na relação com o menino, pede ajuda à família.‘‘Meus irmãos me ajudam muito e estão sempre presentes quando preciso’’, conta. Ela diz que o filho mais novo gosta muito de cinema e costumava, constantemente, assistir a filmes com o pai. Como ela não gosta muito, um de seus irmãos de vez em quando chama o Franco para acompanhá-lo.
Cesar Augusto
Ivete Alves Monteiro revela que sente dificuldades na hora das brincadeiras que envolvem luta e carrinhos
Em função de seu trabalho, as viagens para dar cursos em fins de semana ou servir como intérprete, costumam ser comuns. Para se manter sempre perto dos filhos, Kilda adotou um método. ‘‘A cada viagem eu levo um, e quando coincide de os cursos acontecerem próximos a feriados, levo os três. Trabalho muito, mas trabalho para proporcionar-lhes bem-estar físico e social’’ , explica.
Disponibilidade A gerente de vendas Ivete Alves Monteiro, 36 anos, separada há dois, revela que mesmo quando casada a responsabilidade maior com o filho, João Fernando, 9 anos, sempre coube a ela. Por isso, neste aspecto sua vida não mudou muito. Mas reconhece que assumir o papel de mãe e pai ao mesmo tempo sobrecarrega. Sem contar que sempre tem o lado profissional que não pode ser deixado de lado. Tantas responsabilidades fazem com que a disponibilidade para a criança se reduza um pouco. ‘‘Minha maior dificuldade é na hora de brincar de carrinho ou de luta, brincadeiras próprias de menino. E como ele é uma criança cheia de energia, fica difícil acompanhá-lo sempre. No entanto, nós conversamos muito, trocamos confidências e a nossa relação é de muita amizade e carinho’’.
Quanto à separação em si, Ivete acredita que quando os pais estão bem resolvidos, ela não chega a atrapalhar a vida da criança. ‘‘Se falarmos a verdade e soubermos levar a situação sem fazer chantagens emocionais nem falar mal um do outro para os filhos, tudo fica mais fácil. Além disso, é importante também que o pai continue representando o papel de herói, e a mãe, o de protetora, que dá carinho e também educa’’, diz.
Ivete acredita que para uma mãe, filhos nunca pesam, mesmo que ela tenha que sustentá-los sozinha, dando o melhor para eles. ‘‘A alegria e a felicidade dos filhos será sempre a melhor das recompensas. Sempre digo que o João Fernando é a minha luz’’.

mockup