Esportes de contato e de combate sempre transpiraram testosterona. A ponto de serem considerados, por muito tempo, território exclusivamente masculino. Mas a violência urbana, a postura competitiva da mulher no mercado de trabalho e a necessidade de diversificar a malhação trouxeram às academias de ginástica uma nova dinâmica. Quem não costuma frequentar esses lugares, certamente iria se surpreender ao se deparar com sacos de areia pendurados pelas salas. Nesse ringue improvisado, devidamente paramentadas com ataduras, luvas e capacetes, elas dão socos, chutes e deixam ali todo o stress acumulado durante o dia. De quebra, aprendem técnicas de auto-defesa, fazem um upgrade na auto-estima e ganham um corpinho para lá de enxuto.
Artes marciais como box e kick boxing entraram para o cardápio das academias de Londrina há cerca de três anos e, desde então, vêm conquistando a preferência feminina entre as atividades aeróbicas oferecidas. Não é para menos. Uma aula bem-feita pode queimar de 500 a 800 calorias. ''É uma atividade muito fatigante. Define o corpo todo, principalmente o abdome e os braços. Em um mês, com aulas três vezes por semana, já dá para perceber a diminuição de gordura e o aumento de massa muscular'', garante o lutador de box José de Batista Neto, responsável pelo treinamento das garotas na Wet Sport.
Ringue de verdade As aulas duram cerca de 50 minutos, divididos em dez hounds, com três minutos de atividades e um de descanso. Depois do aquecimento, começa o treinamento propriamente dito, com socos nos sacos e na frente do espelho, além de combate dois a dois. O kick boxing tem ainda chutes e joelhadas, trabalhando todos os músculos do corpo. A garota que resolve experimentar uma dessas modalidades geralmente é levada pela curiosidade e pela propaganda do alto gasto calórico, mas acaba se rendendo às outras vantagens do esporte. ''A gente descarrega a raiva'', observa a estudante de Direito Camila Ferreira, 20 anos, que resolveu experimentar a aula ''na brincadeira'' e, junto com a amiga Carolina Papa, já treina há dois meses.
''Nem vejo o tempo passar, fico totalmente concentrada no que estou fazendo. No box, se gente olhar para o lado, já era'', brinca a universitária Raquel Bastos, 20 anos, que acredita ser importante ter noções de defesa pessoal. A estudante de cursinho Raquel Luna Viggviani nunca tinha se sentido motivada a praticar uma atividade aeróbica até experimentar o box e o kick boxing. ''Acho gostoso. Libera as energias. Os benefícios estéticos são uma consequência'', diz. Embora atraiam muitas mulheres, tais esportes estão longe de serem unanimidade entre elas. Das seis amigas que começaram as aulas com Raquel, nenhuma ficou.
Mas quem vira adepta geralmente se envolve tanto que, não raro, acaba num ringue de verdade. ''A pessoa fica meio dependente da atividade física'', diz a estudante Renata Telles, 19 anos, que depois de dois anos como aluna e dois títulos em campeonatos nacionais de kick boxing foi promovida a professora na Iron Works Gym. O local conta com turmas mistas para iniciantes e para competidores.
As faltas são raras entre os alunos. ''Não tem aquela rotatividade das outras aulas; 80% dos alunos permanecem'', observa a personal trainer Luciane Becegato, uma das proprietárias da academia, que oferece ainda jiu-jítsu e aikido, modalidades de artes marciais que ainda não despertaram o interesse feminino. ''O box e o kick boxing são mais agitados e, por isso, os preferidos das mulheres. Além disso, o risco de lesão é quase nulo, pois não há trabalho com carga'', informa Luciane.
Defesa Para a estudante de jornalismo Fabiana Rodrigues, a autoconfiança é um dos maiores ganhos de quem pratica artes marciais. Campeã brasileira de kick boxing em 2000 e vice em 2001, ela acredita que o desenvolvimento da força e o domínio das técnicas de defesa deixam a mulher mais à vontade para caminhar sozinha pelas ruas.
Essa preocupação com a violência urbana é constante entre as alunas da tradicional academia de caratê Oguido Dojo, tanto que a direção tem planos de abrir uma turma exclusiva direcionada ao ensino de defesa pessoal. ''Tem havido muita procura; as mulheres têm medo de andar sozinhas'', diz o professor Marcelo Oguido. De acordo com ele, já houve casos de garotas que começaram a fazer aula para se defenderem dos próprios namorados. Apesar da equipe feminina da academia já ter sido vice-campeã nacional, os treinos não são voltados apenas para competições, mas visam também o aumento da auto-estima e da auto-confiança.
A universitária Míriam Vempulski, 19 anos, optou pelo caratê por causa da beleza da arte em si e, depois de um ano e meio de prática, já colhe os frutos da dedicação. ''Acho que fiquei mais atenta, mais concentrada. Presto mais atenção nas coisas. Ganhei agilidade e flexibilidade'', define.
As quatro turmas mistas do local contam com 20 mulheres, de 10 a 50 anos. Com uma hora de duração, incluindo atividades individuais e em grupo, as aulas queimam de 800 a 900 calorias e trabalham coxa, panturilha, bíceps e tríceps. Além de delinear músculos, o caratê desenvolve reflexos, estimula a concentração e promove o equilíbrio, inclusive o emocional. Motivos mais do que suficientes para seduzi-las. n

mockup