Muitos pais acham que dizer sim ou fazer tudo o que os filhos pedem irá compensar a ausência enquanto trabalham fora. Ou simplesmente porque dizer sim é mais fácil e estão cansados para ouvir as reclamações e rebeldias dos pequenos.
  Aceitar tudo o que o querido de casa determina é a porta de entrada para uma má educação por parte dos pais. Quem alerta é a pedagoga Varuna Viotti: ‘‘Na preocupação de não frustrar as crianças, de satisfazer todos os seus desejos, os pais perdem o domínio da disciplina familiar, que é o respeito básico para que a criança e, mais tarde, o adolescente e o jovem, aceitem normas na escola e na vida.
  De acordo com Maria Irene Maluf, especialista em psicopedagogia e presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia, o comportamento das crianças ‘‘pidonas’’ é estimulado pela imensa publicidade destinada ao público infantil. Em contrapartida, pais que satisfazem todos os desejos dos filhos podem estar tentando compensar uma ausência no dia-a-dia dos menores ou mesmo a falta de carinho, enfatiza a pedagoga.
  Para Maria Irene, a vaidade dos pais também permeia esse tipo de relação. Ao dar presentes caros para os filhos, ela considera que é uma forma de os adultos brilharem. ‘‘As crianças percebem a atitude e tentam tirar vantagem desse tipo de relação.’’ Maria Irene também aponta a disputa de pais separados ou de familiares para dar o presente mais caro para as crianças como outro problema para os pidões. ‘‘A auto-estima dos pequenos vai para baixo e objetos acabam valendo pouco na mão deles’’, destaca.
Na sala de aulaO reflexo disso é visto não somente dentro de casa: o falso autoritarismo da criança é transportado para a escola e também para as relações com outras crianças. Cláudia Petuca, pedagoga da escola Happy Kids, de Porto Alegre, defende que os limites da criança sejam trabalhados. Como principais características dos pidões, verificadas durante atividades em sala de aula, ela cita intolerância, falta de educação, grande carga de expectativa e insegurança. Para tentar mudar esse tipo de comportamento, Cláudia procura inserir na rotina de seus alunos atividades onde há compartilhamento de brinquedos e exercícios em que se aprende a esperar a vez, a se organizar e a respeitar os objetos comuns a todos.
  Na visão de Maria Irene, a criança que, no lugar de atenção, ganha objetos acaba perdendo o interesse pelos mesmos. ‘‘Quem recebe esse tipo de educação tem grandes chances de se tornar um adolescente inseguro, egoísta e despreparado para o convívio familiar.’’ A pedagoga defende a negociação com a criança, para que ela entenda o valor das coisas.
Futuro problemático Segundo Cláudia, muitos pais, quando são alertados sobre o comportamento dos filhos pidões, ficam perdidos e em dúvida sobre como agir. Muitos até aceitam, mas acabam não aplicando a sugestão dos educadores na rotina da criança. ‘‘Os pidões podem acabar se tornando adultos problemáticos, pois não passaram por frustrações na infância, normais ao longo da vida de qualquer pessoa: uma fase mal trabalhada leva a outra com problemas maiores’’, salienta.
  Não há como cuidar dos filhos ‘‘sob uma redoma’’ onde tudo é permitido. A sociedade cobra limites e nem tudo o que a criança quiser vai conseguir por toda a vida. Estabelecer limites e disciplina requer firmeza. Os pais precisam entender que poupar o filho de situações difíceis, abrindo mão dos limites, é o primeiro passo para problemas sérios na juventude.
  Criança que cresce achando que tudo pode terá mais propensão para fugir da realidade que encontrará, podendo no futuro se envolver com álcool e drogas. Portanto, pense duas mil vezes antes de dizer um sim ou não. Em breve, seu filho agradecerá por isso.
Cortando o mal pela raiz
Zero a três anos
  Mostre para a criança o que pode e o que não pode (o sim e o não). Fique bravo quando ela errar e mostre felicidade quando acertar em sua atitude. Se ela não aceitar uma roupa ou comida, não dê outras opções
Três a seis anos
  Os pais devem dar o exemplo. Cortar passeios caso a criança volte a se comportar inadequadamente pode ser uma boa maneira de coibir os abusos. Mesmo que ela chore e esperneie não volte atrás na decisão
Seis a nove anos
  É fundamental ensiná-las a respeitar professores, irmãos e amiguinhos. Procure saber o que aconteceu antes de tomar qualquer atitude. Se há reclamações constantes por mau comportamento, a procura de um profissional é indicada.

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