Carmem, mãe de Andréia (*), de 11 anos, levou um susto quando a filha apareceu um dia em casa dizendo que gostaria de passear no shopping com o namorado, um colega de escola da mesma idade da menina. Preocupada em proibir o encontro e promover uma briga com a filha, a mãe atendeu ao pedido e levou o casal para o primeiro passeio fora da escola. A surpresa maior veio quando a filha retornou: ela havia beijado o menino e o beijo estava longe de ser o tradicional selinho dado no início de namoro dos pré-adolescentes de antigamente. A mãe tem agora outro dilema: a filha, que ainda não menstruou, voltou a pedir para que ela a levasse em outro encontro com o menino. Carmem agora está preocupada com o que possa acontecer daqui para frente.
Situações como esta estão ocorrendo em várias famílias no mundo inteiro e as razões para esse crescimento antecipado de nossas crianças são muitas.
Segundo o pediatra e hebiatra Renato Mikio Moriya, esse crescimento é decorrente de toda uma melhora nas condições de vida das pessoas. Ele explica que atualmente a alimentação oferecida às crianças está muito melhor do que antes e que o controle de doenças favorece o amadurecimento antecipado do corpo. ''A alimentação dada hoje para as crianças possui muitos hormônios e eles influenciam no crescimento delas. O processo de amadurecimento das meninas começa aos oito anos de idade e vai até os 13, enquanto que nos meninos vai dos nove aos 14 anos'', explica.
Portanto, nada de desespero se seu filho de dez anos começar a se interessar pelo sexo oposto e apresentar um crescimento rápido demais. A única preocupação é com relação às meninas que se desenvolvem muito antes de crescer fisicamente. Moriya afirma que depois da primeira menstruação, as meninas crescem apenas de cinco a sete centímetros e, por isso, menstruar muito cedo pode atrapalhar o crescimento.
Incentivo Mas, o que faz nossas crianças querer ser adolescentes antes da época? A psicopedagoga Maria Izabel Lot explica que a mídia exerce um grande poder de influência nas crianças, mostrando produtos que se assemelham aos usados por adultos e incentivando a vaidade e o consumismo nos pequenos. ''Mas a mídia não é a única responsável. Na maioria das vezes, a criança recebe do adulto o incentivo para agir como uma pessoa mais velha do que ela realmente é. Muitas mães enfeitam suas filhas para irem à escola como se elas fossem artistas de cinema'', afirma. Ela diz os pais agem dessa maneira para tentar suprir nos filhos aquilo que eles não tiveram quando eram crianças. ''Uma mãe que nunca teve a oportunidade de usar boas roupas quando pequena, oferece isso para a filha, imaginando que ela será mais feliz dessa forma''.
O problema dessa atitude dos pais é impor às crianças valores que não cabem e não combinam com elas. ''Nessa fase da vida, a criança precisa brincar, estudar e se relacionar com os amigos, mas sem se preocupar muito com a aparência e com a roupa que está usando. De outra forma, ela irá perder uma época preciosa, preocupada apenas com assuntos que são específicos de adultos'', alerta. Ela afirma que muitos pais, no intuito de serem modernos, acabam por incentivar namoros infantis e passam para os filhos a responsabilidade de decidirem sobre seus relacionamentos. ''Hoje, nosso mundo é muito superficial, até os relacionamentos se tornaram superficiais com a história do ''ficar''. O ideal é que a criança saiba se relacionar. E isso pode ser feito com colegas e com a família'', ensina.
Parecem, mas não são O que está acontecendo com as crianças, de acordo com a psicóloga Eliana Louvison, é uma adultização, mas não um amadurecimento. Ela explica que uma criança vestir-se como adulto e encontrar um namorado não é sinal de crescimento psicológico. ''Havia um tempo onde importante era ser, depois ter, hoje precisamos parecer. Nossos filhos parecem adultos, mas não são. São crianças imitando adultos. Nossas filhas são verdadeiras Barbies'', afirma.
Ela explica que os pais de hoje buscam filhos perfeitos. Há uma preocupação muito grande em fazer dos filhos os mais bonitos, os mais inteligentes e os mais capazes. ''Nessa busca, muitas crianças têm mais atividades do que muitos adultos. A questão é que elas não têm responsabilidades, porque ainda são crianças. Isso causa nas crianças um grande conflito: elas não sabem se são crianças ou adultos'', completa.
O que fazer, então, para que os pequenos aproveitem melhor a infância e não se preocupem tanto com assuntos sérios de adultos? Maria Izabel afirma que a prevenção é o melhor caminho. Evitar programas de televisão que tratem de temas adultos e incentivar a criança a brincar são atitudes que ajudam a prolongar a infância. ''Quando o filho surgir com alguma idéia adulta ou com um namorado, por exemplo, é importante conversar com a criança e explicar que ela ainda não está na fase de namorar e de se preocupar com a aparência e o futuro. Ela só tem que brincar, estudar e aproveitar essa fase'', afirma.
Eliana é mais radical nos conselhos e afirma que um bom começo seria desligar a televisão completamente. ''Vemos nas nossas adolescentes atitudes que são resultados do estrago feito pelo efeito Xuxa há mais de 15 anos, elas são fúteis e mimadas. Se você desligar a TV, a criança vai procurar coisas mais interessantes para fazer. Livros de histórias são excelentes companheiros para crianças'', diz.
Com relação à descoberta da sexualidade, ela afirma que esse tema deve estar presente sempre na vida da criança. Muitos pais deixam para falar sobre sexo e relacionamentos quando os filhos já estão grandes e namorando. ''É claro que devemos respeitar o grau de entendimento das crianças, mas é importante falar de sexo sem medos e tabus e sempre que a criança perguntar'', ensina. Dessa forma, Eliana garante que teremos adultos mais conscientes de sua responsabilidade com o próprio corpo. ''Deixaremos de ter meninas que se preocupam com a roupa e a cor da unha, mas não usam camisinha e engravidam sem desejar'', acrescenta. n
(*) Os nomes são fictícios para preservar a identidade

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