Educação tem limite
Celso Mattos
Existem determinados momentos em que a educação excessiva acaba colocando a pessoa em situações embaraçosas. Uma mãe ensina ao filho que após fazer xixi, ele deve secar o pênis com papel higiênico para não molhar a cueca. Um dia, ele está na casa do amiguinho, vai ao banheiro, mas não encontra papel higiênico e fica com o pipi de fora até a dona da casa providenciar o produto, causando um constrangimento geral. Por mais inusitado que possa parecer, o exemplo citado não é apenas representativo. Ele realmente aconteceu. É o que a psicologia infantil classifica de uma educação fora dos critérios da realidade.
Quando a educação é excessiva, as regras artificiais começam a ser mais importantes que as reais, diz a psicóloga Fátima Conte. Ela argumenta que é preciso um equilíbrio, uma flexibilidade no processo educativo para não criar na criança um comportamento ritualístico e submisso. Crianças educadas com regras muito rígidas acabam se tornando tão ansiosas, que têm medo de dizer não, de ser ousadas quando necessário. Geralmente, elas adquirem manias de limpeza, não conseguem usar banheiro público e têm dificuldade de se adaptar em determinados ambientes. Os pais precisam ter em mente que estão educando o filho para o mundo e não para satisfazer seus próprios ideais, observa.
Uma criança bem-educada causa boa impressão, mas excessivamente educada pode ficar deslocada do contexto social. É o caso daqueles pais que ensinam o filho a comer usando corretamente os talheres. Certo dia, ele vai a um churrasco com os amigos e se recusa a comer porque os talheres não estão completos. Com certeza, ele será motivo de chacota entre os colegas. O mais importante é ensinar a criança a comer com higiene e de forma saudável. O uso correto dos talheres ela poderá aprender mais tarde, quando tiver idade para discernir em que situações essa etiqueta é realmente necessária, orienta Fátima Conte.
Estereótipos A psicóloga alerta para certas regras que podem, inclusive, trazer problemas de saúde para a criança. Existem pais que ensinam aos filhos que eles devem tomar banho após defecarem. Quando estão numa situação na qual isso não é possível, na escola, por exemplo, eles acabam segurando até chegar em casa. Isso pode causar uma doença chamada encropese, que é a retenção fecal. Os pais devem se questionar até que ponto o que eles estão ensinando é bom para a saúde e para o comportamento dos filhos perante à vida e ao mundo. Tomar banho após defecar é, com certeza, saudável e higiênico, mas em determinadas situações isso não é possível, portanto, é fundamental repassar à criança a flexibilidade desse tipo de regra, recomenda.
Os excessos também podem criar alguns estereótipos comportamentais, principalmente no menino, deixando-o muito parecido com uma menina. Coisas do tipo não falar alto, não se sujar, não participar de brincadeiras brutas e secar o pipi com papel higiênico após fazer xixi, entre outras. O menino acaba sendo chamado de maricas e começa a ser discriminado pelos coleguinhas. Quando chega na adolescência, o filho pode tanto se rebelar contra essas regras como pode assumir uma postura dissimulada. Na frente dos pais se comporta de um jeito, longe deles, de outro. O pior é que essa tática pode começar a se estender para outras situações mais sérias, alerta a psicóloga.
Fátima Conte lembra que existem pessoas que perdem oportunidades por falta de flexibilidade e porque têm medo de quebrar regras. Nós estamos vivendo em um mundo dinâmico e globalizado, com diferentes culturas, costumes e níveis de desenvolvimento e é nesse mundo que nossos filhos vão viver. Portanto, eles precisam estar preparados para se adaptar a situações adversas. O importante é os pais repassarem aos filhos conceitos como disciplina, responsabilidade, amor e respeito ao próximo e dignidade. Qualquer um aprende a usar corretamente um talher em questão de horas. Mas reconhecer a importância e a necessidade de ser digno e ter uma postura crítica perante a vida é um aprendizado que leva anos, afirma a psicóloga Fátima Conte.Excesso de regras pode trazer problemas para a criança, colocando-a em situações constrangedoras
ReproduçãoA criança pode se tornar ansiosa, ter dificuldade de se adaptar a diferentes ambientes e ser discriminada pelos coleguinhasArquivo FolhaOs pais precisam se questionar sobre o que eles estão ensinando aos filhos, diz a psicóloga Fátima Conte





