É preciso resgatar o diálogo
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quinta-feira, 20 de setembro de 2001
Celso Mattos 
As crianças e os adolescentes têm vivido, nos últimos cinco anos, na ''Aldeia Global'' profetizada pelo pensador canadense Marshall McLuhan, no início da década de 60. Em tempos de intercâmbios planetários e tecnológicos, os jovens têm a sua disposição um arsenal de meios de comunicação que inclui televisão a cabo, telefone celular, aparelhos de som e micromputadores conectados à internet. Essa geração tem um nome: zapping. Ou seja, vive zapeando de um canal para outro ou de um veículo para outro. É a garotada antenada com o mundo.
Não há como negar que isso tem um lado positivo, mas apresenta também suas desvantagens. De acordo com uma pesquisa realizada pela Brazilian Teenagers Go Global, que contou com 500 jovens de 11 a 19 anos, questionados sobre suas atividades mais frequentes, 87% disseram que ouvem música e 84% vêem televisão. Apenas 53% lêem revistas e menos da metade, jornais e livros. O dado que mais preocupa psicólogos como Eliane Marçal, que trabalha com crianças e adolescentes, é o alto índice daqueles que ficam em frente à televisão.
Para ela, a televisão é uma formadora de opinião e, como na maioria das vezes, a criança fica sozinha em frente ao aparelho e acaba digerindo tudo sem a reflexão de um adulto. ''O ideal seria que pais assistissem aos programas juntos com os filhos para poder conversar com eles sobre o que está sendo apresentado. Sei que isso é complicado porque a grande maioria trabalha fora, porém, os pais não podem ficar alheios a esse problema'', alerta Eliane.
Erotização Segundo a psicóloga, a criança sabe distinguir o real da fantasia, mas o problema é o excesso de violência e erotização ao qual ela é diariamente submetida. ''São cada vez mais comuns os casos de agressividade na infância e o surgimento de comportamentos erotizados. As meninas se vestem como adultas e vivem imitando os rebolados das cantoras dos grupos musicais que proliferam na mídia. Com isso, nossas crianças estão perdendo a inocência, a pureza e o lúdico cedo demais'', reforça.
De acordo com Eliane Marçal, mesmo os filmes mostrando que o bem sempre vence no final, os métodos usados pelo herói para essa conquista é que são problemáticos. ''Ele bate, destrói e mata para conseguir seu objetivo. A mensagem que fica para a criança é que só se conquista o bem através da violência, o que não é verdade. Por isso, é importante os pais conversarem com os filhos sobre o que a televisão está mostrando. Esse diálogo é fundamental'', assegura.
Se durante a semana é complicado para os pais fazerem isso, eles devem aproveitar os sábados, domingos e feriados para investir no diálogo e para estar mais presentes na vida dos filhos. ''Sair para pescar, jogar bola, enfim, brincar com os filhos, investir neles. Agora, não adianta, por exemplo, ir ao clube com o filho e ficar bebendo com os amigos e deixar o filho sozinho'', observa a psicóloga.
Eliane Marçal ressalta que se os pais não investirem nos filhos, alguém lá fora vai fazer isso e, geralmente, com a pior das intenções. ''Não é à toa que as pesquisas mostram que o contato dos adolescentes com as drogas e as bebidas alcoólicas está aumentado e acontecendo cada vez mais cedo. Isso é reflexo de uma infância sem diálogo com a família, na qual os valores humanos não foram trabalhados adequadamente'', observa a psicóloga.
E com a disseminação da internet entre crianças e adolescentes, o cuidado precisa ser redobrado, pois existem muitos sites que estimulam a sexualidade, o uso de drogas e pregam a violência.


