É normal, passa logo
Mas enquanto a fase não passa, as mães de adolescentes perdem o rumo e tentam reencontrar o filho querido


Celina Alonso Az

Fotos: Marcos Negrini
A professora Vera Cantadori respira fundo e conta até dez antes de brigar com seus adolescentesMãe de adolescente precisa ter paciência em dobro? Até a mais ‘‘zen’’ das mães, na época em que seu amado rebento enfrenta a adolescência, acaba se descabelando. E por mais que os especialistas aleguem que esta ‘‘é uma fase normalíssima, que vai passar logo’’, a mãe terá de buscar inspiração em Jó para não perder o prumo. Por mais que a adolescência comece a ser estudada por hebiatras (pediatras especialistas em adolescência) e psicólogos em todo o mundo, eles são unânimes num ponto: a mãe terá de ter muita, mas muita paciência mesmo e usar o diálogo como seu maior aliado.
Os irmãos Helga, 13 anos, e Júnior, 14 (nomes fictícios), de Maringá sempre se entenderam bem, mas depois dos 12 anos parece que começaram a se detestar. Se ele guarda o CD na prateleira de cima, ela diz que o lugar certo é na debaixo. Se ela leva amigas em casa, ele diz que são peruas-patricinhas. Os amigos dele, ela define como punk -pasmacentos. Júnior espera que ela vá à escola para devorar o chocolate que Helga guardou secretamente. Ela aproveita que ele deixou o banheiro uma zona e dá um fim no condicionador dele e ainda molha toda a foto da Luana Piovani que ele guarda no armário do banheiro. Volta e meia eles se agridem verbalmente. Às vezes, escovas de cabelo e tênis encardidos voam pela casa.
Para a pediatra Vera Beltran, se a mãe é incoerente fica difícil impor limites ao filho
A mãe já está fazendo terapia para tentar entender essa revolução no relacionamento familiar que antes parecia harmonioso. O pai diz que uma hora vai acabar perdendo o juízo e apelar para a pedagogia 50/50 (meio Piaget, meio Pinochet) e consertar os dois com uma boa surra. Quando não estão brigando estão dormindo demais ou loucos para passar o dia no shopping. Ai da mãe que ousar fazer uma crítica. Eles viram bichos e levam a santa paciência materna aos píncaros da loucura. Qual a razão de tanta agressividade?
Santa paciência A professora Vera Rodrigues Cantadori, de Maringá, é mãe de três adolescentes e leciona para vários outros. ‘‘Acho que é uma fase em que eles estão muito perdidos. Se a gente se apavora com os problemas que apresentam, acaba confundindo ainda mais a cabeça deles’’, diz Vera ‘‘Precisamos ter paciência porque nesta idade eles não sabem lidar com o corpo, com seus pensamentos e com seus relacionamentos’’, sugere. Mas tem um momento em que a professora-mãe dos adoráveis ‘‘aborrecentes’’ sai do sério. ‘‘ Principalmente na hora em que eles brigam por qualquer besteira. Muitas vezes só de olharem um para o outro começam a brigar’’. Entre irmãos, geralmente, um é mais autoritário e a mãe deve tomar cuidado para intervir na briga sem agredir. ‘‘Nesta hora, eu respiro fundo e conto até dez para não perder o controle’’, sugere Vera Cantadori. Como professora, ela observa que os adolescentes têm uma grande virtude: ‘‘Eles são sinceros, francos, às vezes até demais’’, diz.

‘‘As mães devem ser firmes e honestas com os filhos’’, diz a psicopedagoga Miralda AlcântaraA psicopedagoga Miralda Alcântara dos Santos atua há 22 anos como orientadora educacional em um colégio de Maringá. Ela conta que a maioria das crises entre mães e filhos acontecem por falta informação. A adolescência é um período difícil para a família porque tanto pais como filhos acabam ficando inseguros no relacionamento. O jovem pensa que não é compreendido, e que ninguém percebe que tudo nele está mudando. Ele está sempre com humor alterado e, mesmo com boas intenções, muitas mães não sabem como agir. Miralda cita um caso típico. ‘‘A mãe toma uma atitude e diz que isso é bom para o filho, mas nem sempre é assim que ele sente. Passa a desafiar a mãe e chega a enfrentá-la. Isso deixa a mãe mais insegura’’, diz a psicopedagoga.
Outro caso típico de descabelamento materno, segundo ela é na hora de discutir a sexualidade diante da primeira menstruação ou ejaculação, quando é preciso dar esclarecimentos sobre a vida sexual. Miralda diz que isso mexe com tabus e preconceitos dos adultos, que em geral se desarvoram. ‘‘Muitas vezes queremos lidar com eles da mesma forma que vivemos na nossa adolescência; nem sempre isso funciona porque eles acham que isso está ultrapassado’’.
Entre os assuntos que trazem mais cabelos brancos para as mães estão aqueles relacionados com o corte do cordão umbilical. Quando o filho diz que já é grande para sair sozinho, ou quando sai sem dizer com quem e para onde vai, as brigas acontecem mesmo.
Outra discussão típica que exige o dobro da paciência: a mãe diz que ele ainda não tem idade para fazer determinada coisa. Momentos depois, quando a filha quer uma outra coisa, a mãe diz que isso não fica bem porque ela já é uma moça. ‘‘A mãe quer que a filha seja independente, mas quando ela quer voltar tarde da noite, a mãe não aceita. É medo de perder o controle e de cortar o cordão’’, conta Miralda. Outro pavor que domina as mães nesta fase da vida do filho é quando ele começa namorar e chega feliz dizendo que ‘‘ficou’’ com alguém. ‘‘A mãe tem o mesmo sentimento de perda’’.

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