O filho não fez a tarefa escolar, é culpa da mãe. Faltou laranja para o suco, é culpa da mãe. A criança levou um tombo e se machucou, é culpa da mãe. A adolescente é carente, é culpa da mãe que foi ausente na vida da filha. Ser mãe em nossa sociedade significa quase ser Deus. É preciso ser onipresente: cuidar de tudo e estar presente em todos os lugares ao mesmo tempo.
A verdade é que a sociedade sempre mitificou a figura da mãe, depositando sobre ela toda a responsabilidade pela educação do filho e administração da casa. Essa realidade não mudou nem mesmo quando mulher entrou no mercado de trabalho. ‘‘Ela passou a acumular as tarefas de dona de casa, mãe e profissional’’, diz a psicóloga Fátima Conte. ‘‘E quando não consegue dar conta de tudo e alguma coisa sai errada, sente-se culpada, fracassada no papel de mãe’’, acrescenta.
A psicóloga lembra que a educação do filho não é uma obrigação apenas da mãe, mas do pai, da escola e dos demais membros da família. ‘‘Qualquer adulto que conviva com uma criança deve ter a responsabilidade de educá-la adequadamente para a vida’’, afirma. Fátima Conte diz que ser mãe de dois filhos, hoje, é muito mais difícil do que foi ser mãe de oito há 40 anos. ‘‘Atualmente, a criança está mais exposta à sociedade e conectada com o mundo, o que acaba exigindo muito da mãe, que nem sempre consegue acompanhar essa evolução. Hoje, a mãe tem menos controle sobre o filho do que antigamente, entretanto, as cobranças sobre ela continuam as mesmas’’, observa.
Renúncia Esse endeusamento da figura da mãe traz muito sentimento de culpa para a mulher que, às vezes, acaba renunciando a certas coisas para minimizar essa dor. ‘‘Se o homem diz que vai ficar um mês no exterior fazendo um curso de atualização profissional, todo mundo acha normal. Mas quando a mulher diz isso, o espanto é geral e em seguida vem as perguntas clássicas: quem vai ficar com as crianças? Você tem coragem de deixar seus filhos sozinhos?’’, lembra Fátima Conte.
E se, por acaso, alguma coisa acontecer com a criança nesse período, a mãe é crucificada pela sociedade como uma desnaturada que deixou os filhos para fazer curso no exterior. ‘‘É como se a maternidade fosse uma cruz que a mulher tem que carregar, o que não é verdade. Existem crianças que perdem a mãe e são educadas pelo pai, avós ou tios, tornando-se adultos sem qualquer crise de identidade’’, exemplifica.
A psicóloga cita como exemplo o filme ‘‘Nas Profundezas do Mar Sem Fim’’, no qual o filho de 3 anos da personagem interpretada por Michelle Pfeiffer desaparece durante uma festa. Além de sofrer a dor da perda do filho, o marido, a sogra e a cunhada estão sempre culpando-a pelo ocorrido. ‘‘Cabe a ela também a missão de manter a família unida após a tragédia. E quando o filho reaparece, nove anos depois, é delegada à ela a dura tarefa de readaptar aquele estranho adolescente à família, contornando a duras penas a crise que o retorno do garoto causa em seus outros dois filhos’’, ilustra.
Ficção Fátima Conte diz ainda que não é só a sociedade, mas também os filhos cobram da mãe um papel que está muito além da realidade. Ela conta que em uma conversa com adolescentes, pediu que eles apontassem um exemplo de mãe ideal. A psicóloga estranhou quando dois citaram a personagem Helena, de ‘‘Laços de Família’’, interpretada por Vera Fischer. ‘‘Segundo eles, Helena é moderna, bem informada, admirada e abriu mão do grande amor de sua vida, em nome da filha. Além disso, quando a filha disse que estava grávida, ela foi compreensiva. Isso é uma distorção da realidade porque esse tipo de mãe só existe na ficção’’, afirma.
Segundo a psicóloga, exigir que uma mãe seja igual ao personagem Helena, é irreal e cruel. ‘‘Não existe mãe perfeita, todas elas têm suas qualidades e defeitos, mas todas querem o melhor para o filho’’. Fátima Conte diz que jogar a culpa sobre a mãe pelo comportamento ou sofrimento do filho é uma fuga, e não uma solução. ‘‘Mesmo quando a mãe é culpada, esse tipo de acusação não é uma saída para o problema’’. Em muitos casos, a culpa está em quem faz a acusação. ‘‘Seja o pai, a sogra, a cunhada, a tia, a amiga ou o próprio filho’’, observa.

mockup