Drogas, danos e direitos
Uma perspectiva diferente no tratamento de usuários de drogas injetáveis promete oferecer-lhes novas alternativas de vida. Através do resgate da cidadania e da garantia ao direito à saúde, os programas de redução de danos mostram a possibilidade de novos horizontes a essas pessoas. Em várias cidades brasileiras, instituições que lidam com o problema têm alcançado resultados bem sucedidos através da adoção desta linha de tratamento. A convite da Associação Médica de Londrina, profissionais que trabalham essa questão estiveram na Cidade para contar suas experiências a representantes de instituições que lidam com crianças e adolescentes.
O médico Marcelo Araújo Campos, coordenador do projeto AMMOR Programa para a Infância Desfavorecida do Meio Urbano, em Belo Horizonte, trabalha com redução de danos há 11 anos. Ele explica que o sucesso num programa é atingido quando se estabelece o bem-estar dos indivíduos, sem riscos à comunidade. A estratégia utilizada é a intervenção direta junto aos usuários, através de educadores treinados para desempenharem a função.
A cada encontro são transmitidas informações sobre sexualidade, saúde e cidadania, além do alerta sobre os riscos que a droga oferece. No trabalho com essa parcela da população, nem sempre a abstinência é uma meta razoável, por isso, nos concentramos em conscientizá-los sobre a necessidade de assumir o controle sobre o uso de drogas, afastando a compulsão. Paralelamente, realizamos um trabalho de resgate da cidadania, despertando-os para outras atividades e demonstrando que o usuário também tem direitos, diz.
Ao adotar o conceito de redução de danos, é preciso rever os conceitos estabelecidos sobre droga e vício. Para Marcelo, droga é tudo aquilo com o que se estabelece uma relação doentia, a despeito de causar ou não danos à saúde. Já o vício é definido pela desorganização que causa na vida do usuário, independente da frequência do uso. Quando a pessoa passa o tempo todo tentando conseguir drogas podemos considerá-la viciada, mesmo que ela não tenha crises de abstinência, afirma.
Entre as principais dificuldades encontradas pelos profissionais do programa, está o preconceito da sociedade contra os usuários. O médico explica que os próprios educadores tendem a demonstrar este sentimento, por isso é feito um trabalho no sentido de desmitificar a questão. Não se pode rotular o usuário como alguém que tem distúrbios psíquicos, é só uma pessoa que fez uma opção diferente. Não vamos conseguir resolver o problema se insistirmos em tratá-lo como marginal, completa.
Sobre a questão da prevenção ao uso de drogas, Marcelo alerta que nem sempre funciona dizer que a droga é horrível porque os adolescentes e jovens tendem a achar que coisas horríveis nunca vão acontecer com eles. Essa estratégia de prevenção muitas vezes reforça o uso. Ao se conversar sobre o assunto, é preciso mencionar que as drogas causam prazer mas oferecem riscos, por isso não constituem a melhor opção.





