Lucas tem 10 anos de idade e hoje pode ser considerado uma criança normal. Vai à escola, tem amigos, dorme no quarto sozinho com a luz apagada. Ainda é um pouco inseguro, mas já enfrenta algumas situações normais da idade. Há dois anos, no entanto, antes de iniciar um acompanhamento psicológico, a vida do garoto era bem diferente. Ele não conheceu o irmão mais velho, que morreu aos quatro anos vítima de atropelamento quando ele ainda era bebê. A tragédia na família fez o menino crescer ouvindo sobre a tristeza dos familiares e dos pais, que choravam a falta do primogênito. Por conta disso, desenvolveu vários temores, principalmente em relação à morte.
Lucas externalizava o sentimento apresentando medo de escuro, de ficar sozinho, de lavar a cabeça no chuveiro. Por isso, a mãe, Ângela Regina Marciano dos Santos, demorou para perceber que ele precisava de tratamento. "Achava que ele tinha medos normais porque nós o superprotegemos, mas quando tinha sete anos eu atrasei para buscá-lo na escola e ele ficou desesperado achando que eu tinha morrido. A professora falou que ele sempre ficava ansioso quando eu atrasava, mas aquele dia ninguém conseguiu controlar o choro dele". A professora aconselhou a mãe a buscar ajuda.
Segundo Ângela, por absorver a insegurança e a tristeza que rodeavam a família, Lucas não tinha amigos, não ficava sozinho e não dormia no escuro. "Após dois anos de terapia ele ficou mais seguro, fez amigos, já dorme no quarto dele e até sai na rua. Melhorou nos estudos e já conversa quando tem medo de alguma situação".
A filha mais nova de Ângela, Letícia, de 7 anos, também faz terapia. "Quando ela começou a apresentar alguns medos normais, como do escuro, nós já a levamos. Acho que no caso dela é mais comum mesmo, mas resolvemos não arriscar", diz. Ângela ressalta o quanto foi importante a conversa da psicóloga com a família. "Nós todos fomos aconselhados. Eu não enxergava o problema do meu filho, muitas vezes achava que era frescura. Ele sofreu anos sozinho. As famílias precisam prestar atenção nessas coisas", aconselha. (P.B.O.)

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