Doutores da amizade
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quinta-feira, 17 de outubro de 2002
<br> Karla Matida<br> Reportagem Local 
Que é muito difícil entrar na concorrida faculdade de medicina todo mundo sabe. São noites em claro e dias inteiros estudando. Depois que, ufa, passam no vestibular, são outras tantas noites em claro e dias inteiros estudando. Aliás, são pelo menos seis anos de muita dedicação.
Mas há quem ainda encontre tempo para se divertir, namorar e, claro, construir boas amizades. Com a quinta turma de Medicina da Universidade Estadual de Londrina (UEL) não foi diferente. A diferença é que mesmo depois de 26 anos de formados, os amigos ainda continuam se encontrando com a mesma alegria.
Eles entraram na faculdade em 1971 e se formaram médicos em 1976. No ano passado, comemoraram o jubileu da formatura com muita (e merecida) festa. Passaram uma semana em Ilhéus (BA) relembrando histórias e contando outras novas da turma que se formou há mais de duas décadas.
Dos 84 alunos, a maioria ainda mantém fortes vínculos de amizade. Principalmente porque desde que saíram da faculdade estão sempre planejando as próximas festas de confraternização. Foi assim nos aniversários de cinco, dez, 15, 20 e 25 anos de formatura.
As primeiras duas festas aconteceram em Londrina. Depois viajaram para Foz do Iguaçu, Rio de Janeiro e Ilhéus, para onde foram de avião fretado. Para celebrar os 30 anos, pensam em uma outra praia nordestina. ''Agora já não dá mais para colocar velhinho na estrada dirigindo, tem que ir de avião ou navio'', brincam.
No domingo passado, com o pretexto de uma entrevista para a Folha da Sexta, os amigos aproveitaram o almoço na casa de José Roberto Sabóia Franco para mais um animado encontro. ''Essa aqui é a nossa sede social oficial'', garantem Issao Udihara, Heloisa Nakamura, Mario Seki, Kazuhiro Ito, Juvenvir ''Zaco'' Correia, José Roberto Sabóia Franco, Francisco Faro, Ricardo Yamamoto e Alvaro Jabur.
Tipo de ''comissão de frente'' da turma, os nove amigos vestiram o uniforme uma camiseta confeccionada para a festa do ano passado e contaram quase tudo sobre a longa amizade. Papos médicos? ''Agora estamos falando mais sobre quem está ou não hipertenso, se toma ou não Viagra, se já experimentou o Prima'', contam em tom de gozação, já que a turma garante que quando se encontra volta aos tempos de faculdade e não fica só falando de trabalho, pacientes e afins.
''Aqui não se misturam os canais, mesmo com amigos na mesma área de atuação, não fazemos concorrência'', garante o patologista Mario Seki sobre o segredo da turma em continuar amiga por tanto tempo. Todos concordam.
Ainda faltam quatro anos para a festa de 30 anos de formatura, mas eles já pensam com carinho nos planos. A pediatra Heloisa Nakamura foi eleita a presidente da comissão, mas divide a liderança com o também pediatra Issao Udihara. ''Ele é nosso presidente desde o primeiro ano de faculdade e não tem substituto'', afirmam os amigos.
''Tem gente pedindo para que se diminua o intervalo entre as festas porque está com medo de não estar vivo para a próxima'', brinca o anfitrião Sabóia. Seus dois filhos, que também cursam Medicina, já estão seguindo os passos do pai e dos ''tios'', não só na profissão, mas como também na questão das turmas. ''Também, eles cresceram aqui na sede social'', conta Kazuhiro Ito, que os amigos elegeram como o ''marketeiro'' da turma.
Além de ser responsável pela coluna social do jornalzinho ''Perobal News'', que traz notícias de toda a turma, Ito também foi o organizador do ''escleroteste'' na festa do ano passado. As perguntas, tiradas do baú da memória, exigiam respostas como ''quem era o dono da cantina'', quem era o prefeito da época''.
Aliás, a turma tem mesmo um baú itinerante, que um dia, planejam, vai mesmo parar num museu. Do convite da formatura ao chaveirinho que a turma vendeu para ajudar na primeira festa aos resumos do Ito, está tudo lá guardadinho. Até mesmo o discurso gravado do orador Francisco Faro, que por sinal veio de Assis só para participar da reunião.
''É aqui, com eles, que eu me sinto em casa'', garante Faro, que no ano passado teve ''um piripaque'' (médico falando em linguagem pra lá de leiga). ''Foi emocionante porque eles foram lá me visitar. Até o Ito foi, pronto para fazer a minha autópsia'', sorri.
Para abalar os corações, o hino da turma é mesmo ''Amigos para Sempre'', com o tenor José Carreras. E o lema já está mais do que gravado: ''O tempo inexorável como testemunha, a medicina como ciência, arte e vocação, a fraternidade como lema e fiel opção'', repetem. E seguem à risca.


