Dor infernal
ReproduçãoDor infernalA enxaqueca não é um mal passageiro, mas uma doença que atinge cerca de 18% da população mundialCelso Mattos
Em tempos de desvalorização do real, desemprego e queda das bolsas de valores, é natural que aumentem as crises de enxaqueca. Para a maioria das pessoas, a enxaqueca é um mal passageiro e não uma doença. No entanto, do ponto de vista médico, essa patologia é congênita e as crises, incapacitantes, exigindo tratamento constante. De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Cefaléia, cerca de 18% da população mundial sofrem de enxaqueca, com maior incidência sobre as mulheres. Desses pacientes, 30% perdem dias de trabalho em decorrência da dor e 5% chegam a divorciar-se.
Nos Estados Unidos, a ausência no trabalho em função dessa moléstia acarreta prejuízos superiores a US$ 17 bilhões/ano. Já uma pesquisa recente, realizada entre 2.400 funcionários do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (SP), revelou que as crises de enxaqueca os levam a perder, em média, de seis a oito dias de trabalho por ano. Segundo o médico neurologista José Breno Ferraz, a enxaqueca é uma doença neurovascular altamente debilitante. É caracterizada por uma disfunção dos neurotransmissores do cérebro, informa. Ele acrescenta que existem vários tipos de enxaqueca. Porém, a com aura e a sem aura são as mais comuns, observa.
A enxaqueca com aura exprime um diagnóstico específico que envolve dor num lado da cabeça, sendo acompanhada de naúsea, vômitos e hipersensibilidade à luz e ruídos. A sem aura ou comum é caracterizada por dor de cabeça, principalmente sobre os olhos, explica Breno Ferraz, ressaltando que a pessoa nasce e morre com a enxaqueca. No entanto, ela tem fases diferentes durante a vida. Na infância, por exemplo, ela pode vir em forma de cólicas e distúrbios do sono, sendo mais difícil de ser detectada. Com o amaduredimento hormonal, a dor fica mais específica, tendo seu auge no período dos 25 aos 50 anos. A partir dos 55 anos, as crises se tornam menos constantes e incapacitantes, devido à queda hormonal, explica.
Arquivo/FLÉ importante que o paciente saiba lidar com a doença, observa o neurologista José Breno FerrazMedicamentos O diagnóstico, segundo Breno Ferraz, é feito através do histórico clínico do paciente e do exame neurológico. Pode-se fazer exames subsidiários como tomografia e ressonância magnética para afastar outras patologias mais graves, informa. Ele ressalta que, com um tratamento adequado, a pessoa pode conviver bem com a enxaqueca. É importante que o indivíduo saiba lidar com a doença, não deixando que ela transforme a vida num martírio. Deve-se evitar o uso indiscriminado de medicamentos. Existem pessoas que têm dor de cabeça devido ao abuso de analségicos, alerta o neurologista.
Uma forma de controlar as crises de enxaqueca, é evitar os fatores que a deflagram como excesso de exposição ao sol, ingestão de bebidas alcóolicas, beber muito cafezinho e usar drogas. Até cheiros, ruídos, problemas emocionais, stress e sexo podem contribuir para o surgimento de uma crise, revela o médico.
Breno Ferraz esclarece que o tratamento pode ser preventivo, procurando diminuir o número de crises. Já o tratamento da crise em si é feito através de analségico comum associado a ergotamina. Os melhores são o Sumax, Imigran, Zomig e Maxalt, mas devem ser usados com orientação médica e para crises específicas. A exemplo do que acontece na peça Othelo, de William Shakespeare, quando Desdêmona propõe a Othelo - que está sofrendo de dor de cabeça - amarrar fortemente um pano em torno da testa para estancar a enxaqueca, o neurologista informa que as terapias alternativas como relaxamento, massagem, banhos e colocação de bolsa de gelo, bife e rodelas de pepino na cabeça ajudam a diminuir a intensidade da crise.
A Sociedade Brasileira de Cefaléia, com a apoio da Zeneca Farmacêutica do Brasil, desenvolveu um folheto com teste que indica se a pessoa tem probabilidade de sofrer de enxaqueca. Respondendo a uma série de oito perguntas e conferindo o resultado, a pessoa saberá se convém procurar orientação médica especializada. Para receber gratuitamente esse teste e o material explicativo sobre a doença, basta enviar um e-mail para: [email protected].





