Muito diferente das mulheres que viviam nos anos 20 ou 30, hoje a liberdade feminina é um direito conquistado e indiscutível. No entanto, é justamente essa "liberdade" conquistada pela mulher que causa mais angústia e pressão em jovens profissionais, formadas e capacitadas para o mercado de trabalho, quando o assunto é continuar trabalhando fora ou não após a chegada dos filhos. Muitas ainda se mantém no emprego por uma questão financeira, mas ser "dona de casa" por opção soa como uma escolha equivocada e apontada como "retrocesso" por muitas feministas. Quem faz o "caminho contrário" da história, no entanto, não se arrepende.

Apesar dos benefícios que a saída do mercado de trabalho podem trazer à convivência familiar, nem sempre essa decisão é fácil de ser tomada, conta Luciana Francescon de Oliveira Ferreira de Mello, de 41 anos. Formada em letras, ela deu aulas por dez anos antes de decidir largar a vida profissional para se dedicar à família, e conta que no início ficou "mal" com a decisão porque foi muito questionada por colegas e familiares. "Meu marido consegue sustentar nossa casa, e por isso a questão financeira nunca foi levantada, mas eu senti a pressão, a cobrança das pessoas. Falavam que eu poderia trabalhar meio período, não era necessário largar tudo, mas não era o que eu queria. Poucos entenderam meus motivos na época", lembra.

Ela estava casada há dois anos quando decidiu juntamente com o marido que, quando engravidasse, largaria o emprego estável para ficar com os filhos que gostariam de ter. "Eu gostava do meu trabalho, era uma boa profissional, me sentia livre porque trabalhava fora. Mas acredito que cada coisa tem seu tempo, e era tempo de ser mãe. Foi uma escolha que fiz. Eu queria participar da vida dos meus filhos, e por isso decidi parar, mesmo não sendo fácil". Hoje, após o nascimento de Mateus, de 11, e Ana Luisa, de 8, ela afirma que não se arrepende. "Minha decisão na época foi importante porque eu vejo diferença na nossa família, por ter ficado mais tempo com eles. Estar presente no crescimento das crianças e acompanhar a vida diária é gratificante", frisa.

Apoio da família

Milena Abujamra Fillis Zacaria, de 31, diferentemente de Luciana, relata que não foi questionada pelos colegas de trabalho ou amigos quando decidiu não voltar da licença-maternidade, após o nascimento do primogênito, Gregório, hoje com um 1 ano e meio. Ela estava há quatro meses afastada do canal de televisão no qual trabalhava há oito anos, onde conquistou o cargo de gerência, mas decidiu não voltar após a licença. "Acho que quem é pai entende essa decisão, e eu tinha deixado claro para os diretores que não sabia se voltaria a trabalhar. Tinha deixado em aberto", ressalta. Para ela, o que mais pesou na decisão foi o apoio que recebeu do marido, Rodrigo Zacaria. "Sem isso eu não conseguiria largar o emprego. Nós enxergamos juntos que esse tempo de dedicação ao bebê era muito importante, e tanto eu como meu marido recebemos isso de nossas mães", salienta.

A jovem também conta como é equivocada a ideia das amigas e colegas que questionam como "ela consegue ficar parada", referindo-se ao fato de não estar trabalhando fora. "Eu não fico parada. Minha rotina é bem atarefada com o Gregório, a casa e as tarefas diárias e, por isso, não sinto falta do meu trabalho fora." Antes, ela precisava conciliar o trabalho das 8h30 às 18 horas com a academia e outros compromissos. Hoje a rotina tripla mais a gravidez, já no oitavo mês, consomem todo o tempo de Milena. "O Gregório está sendo minha academia", brinca.

Para ela, estar em casa é um momento para curtir a família. "É muito prazeroso ficar com meu filho em casa. Não pensei que eu ia gostar tanto, mas o valor que eu ganho dedicando meu tempo a ele é muito maior do que qualquer salário que eu poderia receber", conclui.

Leia também:

- Decisão precisa ser conjunta

mockup