Dois em um
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quinta-feira, 14 de outubro de 2004
Karla Matida<BR>Reportagem Local 
Quem tem proximidade com algum médico sabe que a rotina deles é das mais estressantes. Além de passar pelo consultório, ainda têm que cumprir longos plantões, sem contar as visitas hospitalares e até mesmo aulas para futuros médicos. O dia até parece que tem bem mais do que 24 horas.
Não é por acaso que causa espanto quando alguns médicos ainda encontram tempo para ter uma outra profissão. E que levem as duas carreiras com muito sucesso, sem descuidar de nenhuma. Para o dermatologista Hélio Celestino da Silva, a geografia até ajuda, já que seu consultório fica a pouco mais de 50 metros do seu hotel.
Médico hoteleiro? Foi durante uma consulta com uma paciente maringaense que o dermatologista teve a idéia de abrir o hotel. ''Ela (também hoteleira) disse que não dava muito trabalho'', lembra. ''Fiquei empolgado e vendi tudo o que tinha para comprar o terreno e construir o hotel'', explica Celestino.
''Como não sou assalariado, se deixo de trabalhar um mês, não recebo. Pensei que se morresse, meus filhos e esposa ficariam desamparados'', conta o dermatologista. ''Com o hotel já é diferente'', completa. Mas mesmo na hora de exercer seu lado hoteleiro, Celestino não se desvinculou totalmente da área médica. O hotel fica em plena região dos consultórios, a Rua Souza Naves.
Os 43 apartamentos são providenciais para pacientes que vêm de outras cidades e precisam pernoitar para fazer exames laboratoriais na manhã seguinte. ''Também temos muitos representantes de laboratórios como hóspedes'', conta o dermatologista. ''Cada um com seu hobby. Tem quem goste de pescar, eu tenho um hotel'', sorri Celestino.
O doutor José Luís de Oliveira Camargo não mudou o jeito de ser chamado nem mesmo com a conquista do segundo diploma. Isto porque além de ser ginecologista, há dois anos ele também é advogado. ''Fui estudar direito na quinta década da minha vida'', lembra Camargo que em seu consultório divide a estante com livros médicos e o Código Civil.
''Fui resgatar uma vontade íntima que eu tinha desde jovem'', explica Camargo. A escolha da faculdade de medicina foi uma imposição do pai. ''Naquela época o jovem se submetia à vontade dos pais'', diz. ''Com o transcorrer do tempo vi que tinha também aptidão para a área jurídica e sempre li muito sobre o direito na medicina e na saúde'', explica o ginecologista.
Apesar de não estar advogando, Camargo tem participado de seminários e congressos. O próximo acontece em Curitiba e ele o conferencista do debate sobre erro médico. ''Sei que tenho algo a dar mesmo que seja intermediando casos e dando pareceres, tendo contato com processos'', lembra.
''O curso de direito me tocou profundamente. Sou outra pessoa'', avisa Camargo, que acredita que a visão da lei faz falta para todos os profissionais. Para ele, o curso de medicina ''não forma o profissional para o cotidiano de sua área médica. Aquela visão de profissional liberal acabou porque agora os limites são restritos, incluindo questões com planos de saúde e regulamentações governamentais'', garante.
Para fugir da rotina estressante, o pneumologista Denison Noronha Freire resolveu montar uma chácara para onde pudesse escapar nas folgas e finais de semana. Mas para isso precisou arrumar guardas bem especiais. Escolheu logo um casal de pastores alemães para proteger o refúgio. Cerca de 14 anos depois, o hobby virou profissão e o médico também virou criador de cães.
''A finalidade era de guarda, mas a gente se apega e eles ficam quase da família quando se tem respeito e estima'', ensina Freire. Com a perda recente de um animal, o pneumologista está apenas com Bianca, Nila e Igor. ''Já comercializamos várias crias, mas a raça pura tem suas dificuldades'', explica Freire, que lembra que uma das fêmeas é irmã de ninhada de uma vice-campeã nacional. ''É trabalhoso lidar com animais, mas como retorno temos a dedicação deles. É um hobby antiestresse'', garante. n


