Mário Cesar‘‘A falta de amor causa um vazio que é muito semelhante a uma doença’’, afirma o médico Marco Aurélio Dias da SilvaDoce remédio
O amor tem papel fundamental na prevenção e cura de doenças físicas e psíquicas
Celso Mattos
‘‘O verdadeiro inferno é a incapacidade de amar’’, escreveu Dostoiewski. Durante anos, o amor foi o tema preferido de poetas e visionários, mas, nas últimas décadas, ele começou a despertar também a atenção da ciência. Para os estudiosos do assunto, o amor é uma experiência profundamente ligada aos sentidos da memória e todos eles estão decodificados no cérebro. O coração tem apenas um papel coadjuvante. Ele dispara depois que os comandos são acionados. Isso acontece quando vemos, tocamos, ouvimos, cheiramos ou lembramos da pessoa amada.
É nesse momento que o organismo altera seu ritmo, aumentando os batimentos cardíacos, a respiração e a pressão, além de provocar sensação de euforia. A esses sintomas a ciência dá o nome de alquimia do amor. Se esse sentimento mexe tanto com o corpo e a mente do ser humano, quais são as suas consequências e benefícios? Para responder a essas e outras questões, o médico cardiologista Marco Aurélio Dias da Silva usou sua longa experiência no tratamento de pacientes, para escrever o livro ‘‘Quem Ama Não Adoece’’, que está na 19ª edição.
Nascido em Recife, Marco Aurélio Dias da Silva mora atualmente em São Paulo, onde trabalha no Instituto Dante Pazzanese. A convite da Associação Médica de Londrina e do Grupo Pró-vida da Santa Casa, ele esteve em Londrina, recentemente, para uma palestra sobre o assunto. Segundo ele, ao contrário dos animais, o ser humano nasce muito dependente de outra pessoa. ‘‘Todos nós temos uma necessidade enorme de ser amados, de receber carinho. Praticamente tudo o que nós fazemos na vida tem como base o amor. A falta desse sentimento nos causa um vazio, que é muito semelhante a uma doença’’, afirma o médico.
Paixão Como base nessas constatações, Marco Aurélio Dias defende que as pessoas que têm relacionamentos amorosos estáveis são menos propensas a doenças, principalmente cardiopatias. ‘‘Ao longo do meu trabalho e relacionamento com os pacientes, percebi que aqueles que não foram amados nos primeiros anos de vida, têm mais dificuldade de amar outra pessoa na vida adulta e acabam se desprezando a si próprios’’, observa. Mas quando se fala em amor, o médico destaca que é preciso diferenciá-lo de paixão. ‘‘De uma certa forma, a paixão é uma doença. No entanto, é importante para o ser humano vivenciá-la, não podemos pretender eternizá-la. Ao contrário do amor que deve ser eterno, a paixão precisa ser passageira. Querer viver eternamente apaixonado não é saudável e nem recomendável’’, alerta.
O cardiologista ressalta que a paixão é doentia porque carrega um sentimento de posse e insatisfação muito grande. ‘‘Já o amor é libertário e generalizado. Nós amamos o namorado, o amigo, a mulher, a mãe e o pai. A paixão é exclusivista. Você, geralmente, está apaixonado por apenas uma pessoa. Por isso, ela não tem o poder e a importância do amor para o bem-estar humano’’, explica Marco Aurélio Dias.
Perdas Ele lembra que em alguns idiomas as palavras ‘‘doença’’ e ‘‘vazio’’ são muito parecidas. ‘‘É como se a doença viesse preencher um vazio na vida da pessoa. Desta forma, o amor, significando basicamente generosidade, é a melhor forma de que dispomos para preencher esse vazio. Seu papel como vacina, como preventivo contra doenças, fica automaticamente demonstrado. É lógico que a expressão ‘quem ama não adoece’ não pode ser levada ao pé da letra porque existem pessoas que já nascem doentes. O que eu defendo depois de muitos estudos e pesquisas é que o amor faz muito bem para o corpo e para a mente, portanto, quem ama corre menos risco de ficar doente’’, assegura o médico.
Mas, quando se fala em amor, é preciso também falar em perdas físicas e afetivas. Para Marco Aurélio Dias, isso faz parte da vida. ‘‘Mas há um limite e um tempo para o sofrimento. Ele não deve durar mais que seis meses e nem incapacitar a pessoa. Quando a dor da perda ultrapasssa esse limite, ela deixa de ser um sofrimento para ser uma doença física ou psíquica. Muitas vezes, a dor da perda é maior porque ela vem acompanhada de um sentimento de culpa. Nos culpamos por não ter amado aquela pessoa como realmente ela merecia’’, conclui o médico.

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