Do desatento ao hiperativo
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sexta-feira, 17 de dezembro de 2004
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
A psiquiatra e psicanalista paulista Ana Beatriz Barbosa da Silva diz que só terminou a faculdade por ser muito teimosa. Na época de escola, ela ouvia de alguns professores que era muito desatenta e de outros que era muito bagunceira. Durante o curso de medicina, ela confessa que tinha que estudar muito mais do que os colegas para conseguir boas notas, devido à dificuldade de se concentrar nos livros e cadernos.
Foi durante uma palestra de um médico norte-americano que Ana descobriu o seu problema: Distúrbio de Déficit de Atenção (DDA). ''Na época, eu era estudante de medicina e ninguém falava de DDA ainda. Conforme o médico foi explicando o problema, eu via que tinha os sintomas. Foi um alívio saber que eu tinha como controlar minha falta de atenção e memória'', conta. Hoje, ela é especialista em comportamento, já escreveu livros sobre o assunto e esteve em Londrina há algumas semanas para orientar pais e professores a lidar com crianças que tenham DDA ou sofram de hiperatividade.
O primeiro erro enfrentado por quem tem o distúrbio, segundo Ana, é ser confundido com um hiperativo. ''A hiperatividade é um sintoma de DDA, mas não é o único. Podemos dizer que todo hiperativo tem DDA, mas nem todo DDA apresenta hiperatividade'', explica. Isso porque existem três tipos de DDA: o predominante desatento, em que a pessoa tem dificuldade de se concentrar, o predominante hiperativo, que é a pessoa que não consegue ficar quieta, e o tipo misto, onde a desatenção e a hiperatividade se alternam no comportamento.
Como muitos médicos não conseguem diferenciar um tipo de outro e acabam por confundir o problema com hiperatividade, o tratamento fica comprometido. ''Vejo muitos pacientes sendo tratados com calmantes e isso não resolve para quem tem DDA. Imagine a pessoa que é desatenta tomando calmante. Só piora'', diz a especialista, que reconhece que não é tarefa fácil diagnosticar o DDA. ''Digo que a melhor coisa para fazer o diagnóstico em crianças é entrevistar a babá. Ela é a pessoa que convive mais e sabe dar detalhes do comportamento. Quem é hiperativo, por exemplo, é assim até dormindo. É aquela criança que chega a tirar o lençol da cama de tanto que se mexe. Às vezes, os pais e a criança não conseguem dar informações suficientes para um diagnóstico seguro'', garante.
Mas o DDA também tem seu lado positivo, segundo Ana. O desatento geralmente é desligado apenas para assuntos que não o interessam e extremamente ligado no que o agrada. ''Einstein era desatento e foi considerado incapaz pelos professores de escola. Mas ele tinha uma imaginação incrível e era capaz de pensar horas sobre suas fórmulas'', conta. O hiperativo também tem um grande potencial, uma vez que consegue fazer muitas coisas ao mesmo tempo. ''Seu único problema é aprender a organizar as tarefas e controlar a ansiedade'', afirma.
Entendendo exatamente qual o problema da criança, maior prejudicada pela doença, pais e professores podem ajudar a superar as dificuldades e usar essa diferença a favor do crescimento. ''O DDA não tem cura, mas pode ser controlado em qualquer idade. O ideal é procurar um médico e se informar sobre o distúrbio. Às vezes é necessário o uso de medicamentos específicos, mas soluções simples costumam dar bons resultados. Para quem é hiperativo, o recomendado é a prática de atividades físicas, para cansar o corpo. Para os desatentos, o uso de uma agenda já pode ajudar muito'', garante.


