Do colegial para o High School
Rosângela Vale
Além da fluência em inglês, estudar no exterior traz crescimento pessoal e promessas profissionais. Mas para driblar o choque cultural é preciso motivação
Se para muitos estudantes as complexas equações de Química e Física parecem indecifráveis no bom e velho português, imagine só ter que aprendê-las em inglês. Pois a idéia não povoa somente a cabeça de poucos CDFs que andam por aí. Só no ano passado, 10 mil adolescentes trocaram as salas de aula brasileiras pelas americanas, pelo menos durante um semestre do colegial. O número é 30% maior que o registrado em 98, uma prova de que mesmo com a alta do dólar, manter um filho estudando fora do País é considerado um investimento e tanto pelos pais.
Não pusemos o custo na ponta do lápis, mas não é aquele absurdo que a gente imaginava, observa Maria Regina Pedriali Franco, cuja filha, Antonella, está morando nas proximidades de San Diego há sete meses. Lá, ela é controlada, pois tem consciência das suas despesas. Eu teria gasto mais com ela aqui, diz, apontando os fatores decisivos que levaram a família a patrocinar a viagem. Quando ela for competir no mercado, vai estar sempre à frente, tanto pela fluência na língua quanto pela experiência de ter morado fora.
Mas estas não são as únicas vantagens de quem topa o desafio de ser intercambista. Amadurecimento e mudança de valores fazem parte do processo, já que o jovem enfrenta uma realidade totalmente distinta da sua. A começar pela família que o receberá, escolhida pela organização responsável pelo intercâmbio. Geralmente, os pais americanos são bombeiros, enfermeiras, garçonetes, motoristas. Mas com padrão de vida diferente dos que têm essas profissões aqui no Brasil, explica Claret Rosi Costa, da Terranova Turismo, representante do Student Travel Bureau (STB) em Londrina. Traduzindo: são lares com todo o conforto, mas sem luxo, bem diferente daquelas mansões maravilhosas exibidas nos filmes americanos.
Desafios Claret alerta ainda que as escolas que participam dos programas de intercâmbio ficam sempre localizadas em pequenas cidades com cerca de 5 mil habitantes. Não poderia ser diferente, já que o principal objetivo do intercâmbio é a integração com a cultura do país. Uma cidade grande como Nova Yorque está bem descaracterizada, não tem nada a ver com o modo de viver do americano típico, justifica. Por essas e outras, o principal requisito para que a experiência seja válida é a motivação do adolescente. Quando se trata de imposição dos pais, só dá problema, adverte Marcos Santos, do Student Information Service (SIS), de Londrina.
Os desafios da nova vida são inúmeros e o jovem só consegue driblá-los se estiver certo de seus propósitos. Ele vai ter que fazer amizades, conquistar as pessoas, resolver suas emoções de estar longe de casa e ainda cumprir com suas funções acadêmicas, avisa Marcos, observando que na casa americana o adolescente não será um hóspede, mas um membro da família, e como tal, deve contribuir com as tarefas de casa, o que raramente acontece no seu lar brasileiro. É um treinamento de vida, afirma.
Foi o que constatou Alexandra Pinto Giorgi, 19 anos, que estudou seis meses no norte da Califórnia, cursando o equivalente à metade do terceiro ano do Colegial. Com oito anos de inglês no currículo, não encontrou dificuldades na escola. Lá, eles ensinam muito melhor. Os professores são excelentes e as aulas andam mais devagar, conta. Apesar de morar com um casal de idosos, que no início não permitia que ela saísse fato resolvido depois com o infalível jeitinho brasileiro Alexandra tirou dessa convivência seu maior aprendizado. Meu pai americano era cego. Foi uma lição de vida viver com alguém que apesar de não enxergar, fazia tudo sozinho.
Adaptação Para Roger Sérgio Ferreira, que morou seis meses em Oklahoma, ano passado, o que mais valeu foram as amizades que fez por lá. Sem dúvida, os melhores cinco meses da minha vida, garante. Não é para menos. Ele ganhou atenção redobrada dos professores e a ajuda constante da sua família americana, inclusive nas lições de casa. Por mim, ficaria mais tempo, diz.
Nem sempre as coisas são tão fáceis assim. Maria Regina conta que Antonella chegou a querer voltar para o Brasil antes do término do programa. Ela vivia em uma comunidade religiosa e as regras eram muito rígidas. É o choque cultural, observa. É exatamente esse o receio de Felipe Sanches Bueno, 17 anos, que em breve inicia a High School, já consciente dos desafios que terá pela frente. Sou bastante tímido. E aqui estou acostumado com o pique da cidade grande. Lá, vou morar no interior, analisa. Mas, no final das contas, sabe que tudo ficará bem.
Que o diga Antonella. A coordenadora do intercâmbio teve uma postura exemplar, mostrando que todas as experiências seriam frustrantes. Agora, ela foi adotada por outra família e está animadíssima, relata a mãe. A indicação dos amigos que já estiveram lá e gostaram, a vontade de aprender inglês e conhecer pessoas novas foram os principais motivos para que Lucas Weber, 15 anos, decidisse passar um semestre nos Estados Unidos. Ele embarca em agosto e garante que está preparado para o que der e vier. Estou querendo ir mesmo, não tenho medo de nada.
De acordo com Marcos, somente 10% a 20% dos intercambistas têm algum problema de adaptação. Os três primeiros meses são os mais cruéis, observa Claret. Durante os cinco anos em que trabalha nessa área, ela afirma que nunca houve casos de desistência do programa. Sempre conseguimos contornar a situação e resolver o problema, garante.





