Dizer ''não'' é preciso
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quinta-feira, 25 de maio de 2000
Celso Mattos 
Aparentemente não é fácil identificar uma pessoa que não sabe dizer não. Esse comportamento só começa a ser notado depois de algum tempo de convivência porque, geralmente, nem a própria pessoa tem consciência de sua passividade perante determinadas situações. A dificuldade de dizer não, apesar de ser sempre tratada como um problema menor e sem grande importância, pode gerar muitos transtornos. O medo de se posicionar, de se opor ou contrariar desejos alheios, leva a frustrações, complexo de culpa e sobrecarga de responsabilidades.
Dizer não nem sempre é fácil, pois desde criança somos ensinados a ser simpáticos com os outros e corresponder o que esperam de nós. Embora essa aprendizagem social seja, em parte, necessária, não podemos esquecer que corresponder às próprias expectativas e respeitar os próprios sentimentos é ainda mais importante, afirma a psicóloga Maria Zilah Brandão. Para ela, uma educação repressora ou excessivamente crítica pode transformar a criança num adulto passivo, sem vontade própria. Os pais costumam punir a criança que diz o que pensa, enquanto o certo seria ensiná-la dizer o que pensa na hora e lugar certos. Quando os pais são muitos críticos, o filho começa a querer corresponder ao controle deles desenvolvendo uma passividade perante a vida, acrescenta.
A psicóloga explica que passivo é a pessoa que não sabe dizer não, que acha que tem menos direito do que o outro. Já o agressivo é o oposto. Só sabe dizer não e acredita ter mais direito que os demais. O equilíbrio entre essas duas posturas é conhecido, na psicologia, como assertividade. Ser assertivo é saber se posicionar, é dizer sim e não na hora certa e de forma correta. É a pessoa que sabe respeitar os seus sentimentos e também os dos outros. Enfim, que tem vontade própria.
Exploração Maria Zilah ressalta que as pessoas não-assertivas, geralmente, são mais exploradas no trabalho e no bolso. Por não saber dizer não, elas acabam acumulando mais funções e comprando coisas que não precisam. Se há duas pessoas, uma que sabe dizer não e outra que só diz sim, para quem você vai pedir dinheiro emprestado ou mandar fazer uma determinada tarefa? A gente não faz isso por maldade e nem de propósito, mas por comodidade. Simplesmente porque é preciso gastar menos saliva. A consequência disso, segundo a psicóloga, é que as pessoas que não sabem dizer não acabam ficando estressadas, mau-humoradas e frustradas. Elas engolem mais sapos que os outros.
Mas a não-assertividade traz ainda outros problemas, principalmente no campo profissional. Quem não sabe dizer não jamais pode ocupar um cargo de chefia, não pode ser um líder, observa a psicóloga, ressaltanto que o não-assertivo, geralmente, é uma pessoa que tem auto-estima muito baixa e que tenta fugir de situações sociais. Tem receio de assumir qualquer posicionamento pessoal que contrarie o outro. E quando, numa situação limite na qual consegue dizer não, o não-assertivo se sente culpado, com medo de ter magoado a outra pessoa.
Maria Zilah Brandão lembra que outra característica muito comum nos indivíduos não-assertivos é a procrastinação. É o hábito de enrolar ou adiar uma decisão. Um amigo te convida para ir a uma festa, mas você não quer e não tem coragem de dizer não. Então fica enrolando, dizendo que dará a resposta mais tarde, que a mãe não está passando muito bem e talvez precise ficar em casa. O mesmo acontece quando um vendedor tenta empurar um determinado produto que o passivo não quer comprar. Ele desenvolve um bate-papo absurdo com o vendedor, mas não tem coragem de dizer eu não quero, e pronto, encerrando definitivamente a conversa.
Tratamento No anseio de fugir de situações nas quais precisa tomar decisões, o não-assertivo começa a mentir muito. Vamos usar o mesmo exemplo. Um amigo te convida para ir a uma festa e você diz que não pode porque sua mãe está passando mal. Mais tarde, ele liga de novo para sua casa e sua mãe atende ao telefone com um voz muito saudável. Resultado: na tentativa de preservar sua imagem de bonzinho, o não-assertivo acaba se passando por mentiroso, por uma pessoa não confiável, deixando o amigo com o sentimento de que foi enganado. Não seria muito mais fácil dizer eu não quero ir, questiona a psicóloga.
A pessoa que não sabe dizer não é alguém que não sabe se valorizar. Além disso, existe outro problema: quem não sabe dizer não, não sabe receber um não. Quando ouve uma negativa a pessoa fica arrasada e se faz de vítima, constata Maria Zilah Brandão. A psicóloga argumenta que quando essa passividade começa a prejudicar as relações pessoais e profissionais, o melhor a fazer é procurar um tratamento psicoterápico. Através de jogos de dramatização, a pessoa é colocada diante de situações nas quais ela aprende a tomar decisões e a se posicionar adequadamente. O tratamento pode ser individual ou em grupo, observa Maria Zilah Brandão.
Serviço: O Instituto de Psicoterapia e Análise do Comportamento (PsicC) oferece o programa de Relacionamento Interpessoal: assertividade nas relações pessoais e de trabalho. Mais informações pelo fone (43) 324-4740.


