Falta de atenção, dificuldade de convivência social, irritabilidade, uma mentira, um furto. Como os pais e o pediatra podem avaliar se esses e outros distúrbios de comportamento em uma criança são normais e passageiros ou é necessário pedir ajuda a um especialista?
  ‘‘Estudos mostram que cerca de 20% das crianças que apresentam problemas de comportamento precisam da atenção de um especialista. Os demais casos podem ser resolvidos apenas com a intervenção do pediatra’’, afirma Ricardo Halpern, especialista em Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento e professor da Faculdade Federal Fundação de Ciências Médicas de Porto Alegre e Universidade Luterana do Brasil. Segundo ele, o encaminhamento para tratamentos desnecessários pode trazer mais desgaste emocional e insegurança para a criança e sua família.
  Por isso, os pais precisam estar muito atentos às atitudes dos filhos, e os pediatras, preparados para realizarem uma avaliação correta, considerando todas as variáveis que envolvem a criança, como idade, desenvolvimento, condição social e afetiva da família, ambiente em que vive, situações traumáticas que tenha presenciado, entre outras. ‘‘Todo comportamento tem uma razão de ser e a chave para resolver o problema é descobrir suas causas. Quando a criança apresenta distúrbios do gênero, freqüentemente, está tentando dizer com a habilidade que tem (ou não) que falta algo em sua vida ou buscando resolver de maneira inadequada um determinado problema’’, explica o médico.
  A definição mais completa de distúrbios do comportamento abrange cinco características que aparecem de forma persistente: dificuldades escolares, relações interpessoais não satisfatórias, sentimentos não apropriados, tristeza excessiva ou depressão, sintomas físicos sem um quadro clínico que os explique, ou medos associados. Neste contexto, a criança geralmente apresenta um controle muito limitado de suas atitudes e os problemas podem variar de uma irritabilidade ou oposição, até a quebra de regras sociais (mentira) ou códigos legais (furtos, roubos, uso de drogas).
  ‘‘Os distúrbios podem ser considerados moderados ou graves, de acordo com a idade e as circunstâncias em que ocorrem e sua duração’’, explica Halpern. De acordo com sua origem, podem ser: reacionais, correspondendo à reação da criança a uma determinada situação crítica, desagradável para ela; endógenos, caracterizados por impulsividade, desatenção e hiperatividade, geralmente associados ao transtorno de hipertividade e déficit de atenção, que é um problema funcional; e relativos à vontade, que são os mais graves, pois envolvem ações propositais e delitos, rompendo regras sociais e demonstrando desvios de conduta.
  Além disso, alguns comportamentos de oposição e ‘‘desonestos’’ são esperados no desenvolvimento normal das crianças, em algumas faixas etárias, como nos primeiros anos de vida. Outras vezes, os transtornos estão relacionados à tentativa da criança de resolver desafios utilizando recursos próprios, que resultam em soluções não adequadas socialmente. Nestes casos, o problema é ocasional e deve ser corrigido com a orientação dos pais, para que a criança não adote a atitude errada como padrão.
  Os pais não devem ignorar nem reprimir a criança, pois isso pode agravar os distúrbios. O tratamento envolve a identificação da origem do problema e o envolvimento da família para que a criança se sinta mais segura, melhore sua auto-estima e o relacionamento familiar e social. ‘‘A relação com os familiares, geralmente, é a gênese e a solução do problema’’, constata o pediatra. Segundo o ele, quando o distúrbio é duradouro, persistindo por mais de seis meses, pode ser necessário a ajuda de um especialista.

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