Dilemas cotidianos
Márcia Modesto
Agência Estado
Ultimamente, a vida passou a ficar sem sentido. Está faltando alguma coisa. Me sinto tão sozinho. Essas são as principais queixas de um número crescente de pessoas, a maioria das classes média e alta que, diante do fantasma da solidão, estão (re)descobrindo o divã e métodos terapêuticos de ajuda. Ao contrário do que se imagina, o sentimento de frustração não está presente apenas no cotidiano de quem perdeu o emprego, vive dificuldades financeiras ou teve uma desilusão amorosa. Na verdade, a sombra da solidão acompanha de perto a vida de muitas pessoas bem-nascidas, reconhecidas no trabalho e que têm a impressão de que já conquistaram (quase) tudo.
A sensação de abandono independe de idade e classe social. Atendo com frequência adultos e adolescentes com o mesmo problema, diz a terapeuta junguiana, Maria Alice Warschauer, especialista em Psicologia Analítica que incorporou à abordagem de Jung outras técnicas alternativas para trabalhar problemas de sexualidade e afetividade.
De seu consultório em São Paulo, ela revela que seus clientes só procuram a terapia no último momento, numa tentativa desesperada de sanar a dor e se livrar da situação. As pessoas são imediatistas, querem solucionar o problema como se fosse um dor de dente, mas as coisas não funcionam assim. Ultrapassar a fase da depressão exige tempo e capacidade de assumir sua parcela de responsabilidade diante da própria infelicidade, resume a terapeuta. É exatamente essa tomada de consciência que as técnicas que adota tentam despertar no cliente.
Segundo Maria Alice, é comum os pacientes reclamarem da vida, dos conflitos no trabalho, do marido ou da esposa, mas não conseguem ver que se o problema está se repetindo é porque elas estão contribuindo para isso. O processo é lento, exige compromisso da pessoa e vontade de melhorar. Para ela, se a pessoa não investir seriamente no amadurecimento emocional, sempre estará envolvida nos mesmos problemas. Não adianta tomar florais de Bach, fazer terapia de vidas passadas, tomar antidepressivos - o equilíbrio interior depende de um investimento emocional maior que exige tempo e amadurecimento, enfatiza.
Máscaras O terapeuta Abel Guedes, professor de Psicologia que formou muitos outros terapeutas, em São Paulo, usou seus 23 anos de experiência no estudo do comportamento humano para ir mais fundo na questão. Guedes atesta que o homem urbano está sendo engolido pelo ritmo acelerado das grandes cidades e pela vaidade que o mantém preso às suas próprias máscaras. As pessoas sofrem porque não conseguem ser mais elas mesmas. Estão sempre preocupadas com a moda, em demonstrar status, criar a melhor imagem de si mesmas, mergulhadas numa oferta muito grande de possibilidades e sem tempo para fazer suas próprias escolhas , sentencia. Guedes resume o drama do homem de hoje em três palavras: mentira, medo e preguiça, ou seja, medo de enfrentar suas limitações; preguiça de sentir e pensar sobre sobre si mesmo; e mentira, no sentido de criar um simulacro de suas relações.
E quem mais sofre com tantas exigências da sociedade moderna, o homem ou a mulher? Segundo o terapeuta, ambos estão enfrentando os mesmos dilemas. Essa crise existencial é mais ampla, faz parte da condição humana, embora seja vivenciada de forma diferente por homens e mulheres. Acostumado ao universo masculino, ele revela ainda que os homens não estão conseguindo assimilar as grandes mudanças no comportamento feminino. As mulheres sofrem porque preferem competir com os homens do que valorizar seu próprio potencial. Esse descompasso entre os dois cria uma mútua falta de confiança.
Paternalismo E o que terapeuta propõe? Considerada uma revolução na história das psicoterapias, ele tem a pretensão de iniciar um processo de mudança mais rápido. A partir da vivência das pessoas, o terapeuta busca desencadear no agente (e não paciente) uma espécie de reorganização de seu comportamento. A proposta é estabelecer uma relação de igual para igual, considerando que o outro é capaz de fazer suas próprias escolhas e de suportar seus desafios.
Longe dos métodos paternalistas, Abel Guedes faz com que a pessoa fique cara a cara com seus medos, mostrando que o sentimento que imobiliza todos os seres humanos é criado por nós mesmos. Frases como: Você não é vítima do medo, ele só existe porque você o alimenta; Você está tendo problemas de relacionamento porque está contribuindo para isso. Não se trata de falta de compreensão. Segundo o terapeuta, o método ajuda as pessoas a ver que são agentes de tudo em suas vidas até mesmo quando há algo errado em suas relações.
Despertar os sentidos para as coisas simples, conhecer a si próprio e passar a valorizar as pequenas coisas também são outras dicas básicas. A terapia ensina ainda como redescobrir velhos prazeres, como contemplar as cores, entrar em contato com a natureza ou simplesmente ficar à toa, disponível para aproveitar a vida. O importante é resgatar a sedução, envolver-se com tudo mais profundamente, abrir-se ao inesperado e desenvolver a capacidade de sentir. Abel Guedes propõe uma espécie de retorno à origem, aquela energia criadora do universo da qual todos nós fazemos parte.





