‘‘As dúvidas, conflitos e anseios do adolescente no ano 2000 são diferentes, em alguns aspectos, dos enfrentados por seus pais e avós em outras décadas. Apesar de os mais velhos sempre acharem que hoje em dia tudo é mais fácil, os jovens contemporâneos se deparam com mais desafios que as gerações anteriores’’. A afirmação é da ginecologista Albertina Duarte, coordenadora do Programa de Adolescência da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, que esteve em Londrina no mês passado para proferir uma palestra no 42º Congresso da Associação Médica de Londrina.
Pesquisadora da Organização Mundial de Saúde e doutora em ginecologia, ela afirmou que os problemas surgidos a cada etapa da vida precisam ser inseridos no espaço, tempo e sociedade em que acontecem.‘‘Os pais sempre chegam ao consultório dizendo que no tempo deles era tudo mais difícil, que os filhos tem vida boa, mas não acho que seja verdade. Entre outras coisas, os adolescentes precisam se preparar para um mercado de trabalho cada vez mais exigente. O investimento no futuro profissional começa mais cedo, aqueles que não estão sintonizados com a nova realidade acabam ficando para trás’’, disse.
Apesar da maior cobrança, as perspectivas de futuro apresentadas ao jovem são pouco animadoras. Em uma época de crescente violência e mudança nas relações de trabalho, eles precisam se preocupar com a falta de empregos, o perigo das ruas e as doenças sexualmente transmissíveis. ‘‘Vivemos uma época de pessimismo e falta de esperança, os adolescentes começam a aprender a amar no tempo da Aids, entre outros desafios que envolvem maior responsabilidade’’, argumentou.
Neste panorama, a presença da tradicional turma é importante enquanto fator de proteção, pois é aprendendo a negociar em um pequeno grupo que o adolescente se torna capaz de enfrentar os relacionamentos do mundo adulto. ‘‘A turma é um território seguro, onde o jovem convive com companheiros que compartilham suas dúvidas, anseios e sentimentos. Normalmente, eles recorrem aos amigos para fazer confidências’’, acrescentou.
A pesquisadora também identifica mudanças no que diz respeito ao acesso a informações. Antigamente, a falta de liberdade dificultava o esclarecimento das dúvidas comuns à idade, os garotos e garotas acabavam aprendendo sozinhos ou com os amigos sobre sexualidade, mudanças do corpo e outras modificações que chegam junto com o crescimento. ‘‘Muitas vezes aprendiam errado, porque os companheiros da mesma idade também não têm experiência suficiente para prestar todos os esclarecimentos necessários. Na verdade, eles possuem as mesmas dúvidas’’, argumentou Albertina.
Hoje, a falta de informações cede lugar ao excesso. Além de os pais estarem mais acessíveis para conversas, as novas tecnologias, como a Internet, contribuem para que os garotos e garotas tenham acesso a todo tipo de novidade. ‘‘O problema é que eles não possuem tempo para amadurecer esses dados, que são acumulados sem discussão. Seria importante criar um canal para compartilharem com os outros tudo o que aprendem, trocarem experiências para se reconhecerem enquanto participantes ativos da socieadade’’.
A médica relatou que, apesar do excesso de informações, um problema antigo – a gravidez na adolescência – ainda é muito sério no Brasil. Em 1999, um milhão de meninas até 19 anos deu à luz no País, 35 mil delas entre 10 e 14 anos, com média de um parto a cada 17 minutos. ‘‘É aquela velha história, o adolescente nunca acha que coisas ruins podem acontecer com ele’’, ressaltou.
Uma pesquisa realizada com 56 mil jovens apontou que eles mantêm a primeira relação sexual entre os 14 e os 17 anos. Durante a experiência, os sentimentos mais comuns são o medo e insegurança sobre a nova etapa da vida.
Na maioria dos estados brasileiros, a incidência de Aids entre adolescentes também está aumentando, notadamente entre as mulheres muito jovens. Grandes vítimas de todo este processo, elas são mais propensas a contraírem a doença. Porém, continuam negando a proteção proporcionada pelo preservativo, muitas vezes por vergonha de sugerir ao parceiro para fazer uso do apetrecho.
Velhos para irem ao pediatra e muito jovens para se consultarem apenas com especialistas, os adolescentes contam com uma especialidade médica exclusiva para orientá-los sobre as mudanças que enfrentam neste período da vida. Trata-se da hebiatria, destinada a atender a puberdade de maneira integral, solucionando problemas de saúde, esclarecendo dúvidas e riscos que chegam com a nova fase e auxiliando no desenvolvimento de projetos pessoais.

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