A convivência entre vizinhos sempre foi um prato cheio para os filmes de comédia. Quem não se lembra de ‘‘Meus Vizinhos são um Terror’’, no qual o astro Tom Hanks trava uma verdadeira batalha com a família que mora em frente à sua casa. Mas é no recente ‘‘O Suspeito da Rua Arlington’’, que a delicada relação se mostra ainda mais difícil. Após salvar a vida de um garoto, Jeff Bridges descobre que ele é filho de seu vizinho. Quando conhece os pais do menino, ele fica com a pulga atrás da orelha, pois desconfia que seu vizinho é um impiedoso terrorista. Começa então um eletrizante jogo de gato e rato entre os dois, resultando em muitas confusões. Isso sem falar no recente sucesso da comédia ‘‘Meu Vizinho Mafioso’’, com Bruce Willis.
Essa relação pouco amigável e que rende muitas reclamações não dá o que falar apenas na ficção. Na vida real, os constantes desentedimentos podem não chegar aos extremos mostrados na tela, mas rendem queixas e dores de cabeça. Em alguns casos acabam na justiça. A pedagoga Sílvia, 42 anos, que prefere não se identificar, está morando há oito anos num bairro nobre da cidade, mas até hoje não pode rebocar o muro do lado esquerdo da casa. É que deste lado, mora um francês nada amigável. ‘‘Ele argumenta que o muro é dele, e que eu deveria ter construído outro quando fiz a casa. Meu marido queria aumentar a garagem, mas não pode porque para isso teria que usar parte do muro como parede, e ele não permite’’, reclama.
Pervertido Sílvia conta que já pensou em levar o caso à justiça, mas acabou desistindo quando o advogado informou que seu vizinho tem direitos sobre o muro. A solução seria ela construir outro muro ou entrar num acordo. ‘‘Mas ele não aceita sequer conversar sobre o assunto. Agora, construir outro muro eu não construo porque acho um desaforo’’. Como o francês se mantém irredutível, o muro da discórdia continua inacabado.
Mas não são apenas as famílias que moram em casa e que enfrentam problemas com vizinhos. A exemplo do filme ‘‘Melhor É Impossível’’, no qual o pintor Simon sofre todos os tipos de ofensas do seu vizinho de apartamento Melvin Udall, interpretado por Jack Nicholson, o professor de inglês Marcelo, 27 anos, (que prefere não se identificar), tem enfrentado muitos problemas com sua vizinha. ‘‘Ela espalhou para o prédio inteiro que sou um pervertido só porque recebo muitas garotas no meu apartamento. Além disso, vive reclamando que ligo o som muito alto’’, conta Marcelo.
Sem provas Para a funcionária pública Marta, 34 anos (nome fictício), a receita para não entrar em atrito com vizinho é manter uma certa distância. ‘‘Se a gente começa com muita intimidade, mais dia menos dia acaba em desavença. Eu trato bem meus vizinhos, mas procuro não me envolver muito’’. Mas nem isso livrou Marta de um incidente desgastante com sua vizinha. ‘‘Minha empregada ficou muito amiga da empregada dela. Como fico o dia inteiro fora, era impossível controlar esse relacionamento. Um dia sumiu uma pulseira dela, e a culpa recaiu sobre a minha empregada. Ela exigiu que eu a demitisse, como recusei, a pendência foi parar na justiça’’, relata a funcionária pública.
Foi aberto inquérito, mas nada foi provado. Mesmo assim, a convivência entre as duas vizinhas se tornou insuportável. ‘‘Minha empregada pediu demissão porque não suportou a fama de ladra que começou a ter entre os outros moradores. Isso aconteceu há dois anos, e até hoje ninguém sabe o que realmente aconteceu. Posso estar enganada, mas sempre acreditei na inocência da minha empregada, pois ela trabalhava para mim há muito tempo e nunca notei falta de nada dentro de casa’’, lamenta.
Mas a convivência com vizinhos nem sempre é marcada por discórdias. A secretária executiva Jandira Resende, 37 anos, conta que deve a vida de seu pai a sua vizinha. ‘‘Eu estava trabalhando e meu pai, que tem 75 anos, estava sozinho em casa quando teve um princípio de infarto. Ela não só fez massagem no peito dele como colocou-o no carro e levou-o para o hospital. Só depois ligou para meu trabalho avisando-me do ocorrido. Os médicos me disseram que meu pai só sobreviveu porque o atendimento foi rápido e eficiente’’.
Ela conta que a convivência entre elas sempre foi boa, mas depois disso ficou ainda melhor. ‘‘Hoje somos uma pela outra. Quando ela precisa sair, eu cuido da casa dela, se precisar fico com as crianças. Acho fundamental a gente fazer de tudo para conviver bem com os vizinhos porque esse negócio de ter um inimigo morando ao lado não dá certo. Na verdade, é um atraso de vida’’, garante Jandira Resende.

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